2 . RESENHA BIBILIOGRÁFICA E ARTIGOS DIVERSOS
2.1 SISTEMAS DE VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA DA INFECÇÃO POR HIV E AIDS
VIGILÂNCIA EOPIDEMIOLÓGICA: Vigilância epidemiológica é o conjunto de atividades que permite reunir a informação indispensável para conhecer, a cada momento, o comportamento ou a história natural da doença e assim detectar ou prever alterações de seus fatores condicionantes. O propósito da Vigilância epidemiológica é recomendar medidas de atuação sobre bases objetivas e científicas, a curto, médio e longo prazos, capazes de controlar ou prevenir o problema.
Suas funções são:
- reunir toda informação necessária e atualizada - coleta de dados;
- processar, analisar e interpretar os dados - organização e análise dos dados;
- fazer as recomendações pertinentes que decorram das funções anteriores para a implementação de ações de controle, imediatas ou a longo prazo - divulgação e uso dos dados.
Tudo isto pode ser resumido como: vigilância epidemiológica é a informação para a ação.
VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA DA INFECÇÃO E DA DOENÇA - no caso da AIDS considera-se que existem duas situações a serem avaliadas - os CASOS de AIDS e a INFECÇÃO por HIV - os objetivos e as metodologias de vigilância são diferentes para cada uma destas situações.
VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA DOS CASOS DE AIDS - é feita de forma sistemática através de notificação (compulsória) dos casos diagnosticados que sejam compatíveis com os critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde. O objetivo desta Vigilância é obter as informações para planejar as ações a curto e a médio prazos - cálculo da necessidade de medicamentos e de disponibilidade de medicamentos e de disponibilidade de ambulatórios e leitos hospitalares.
VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA DA INFECÇÃO POR HIV - é feita através de estudos pontuais com populações específicas e metodologia especial. A metodologia mais usada para vigilância da infecção é chamada Vigilância Sentinela, cujo método e critérios de escolha foi criado e sistematizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O objetivo desta vigilância é obter as informações para planejar as ações a longo prazo - campanhas educativas e medidas de intervenção.
SISTEMA DE VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA DA AIDS NO RIO GRANDE DO SUL:
Coleta dos dados: A coleta dos dados é feita e sistematizada no Setor de Epidemiologia da Seção de Controle da AIDS da Secretaria da Saúde e Meio Ambiente do RS (SSMA/RS) através de:
- FICHAS DE NOTIFICAÇÃO - que devem ser preenchidas pelo profissional que fez o diagnóstico (em nível ambulatorial) ou pelo serviço de controle de infecção hospitalar (em nível hospitalar): A ficha de notificação de AIDS (adulto) será anexada no final deste artigo.
- AEROGRAMAS PADRÃO - que devem ser enviados pelas delegacias de saúde (em nível de posto de saúde);
- ATESTADOS DE ÓBITO - cujas cópias são enviadas à SSMA/RS sistematicamente e podem apontar, além da taxa de letalidade, os casos que ainda não foram notificados;
- INVESTIGAÇÃO DE PRONTUÁRIOS - busca ativa dos casos nos serviços que atendem sistematicamente doentes de AIDS.
Organização e análise dos dados: Os dados são armazenados em dois bancos de dados, em microcomputador, um deles de segurança, que utilize o programa EPIINFO e o outro utilizando o SINAN (Sistema Nacional de Informações) banco de dados universal utilizado para notificação de doenças agudas e crônicas no Brasil. Mensalmente é feita análise geral dos dados incluídos naquele mês. Trimestralmente é feita uma análise mais ampla de todos os casos registrados da epidemia no Estado, através de séries históricas e análises por períodos, e segundo indicadores epidemiológicos adequados.
Divulgação e uso dos dados: Mensalmente é elaborado um relatório sumário da situação atual da epidemia de AIDS. Trimestralmente é elaborado um Informe Epidemiológico contendo não só a análise da situação histórica da epidemia de AIDS mas também outros artigos e comunicação de eventos de interesse na área. As informações são divulgadas sistematicamente também através da imprensa leiga. Os dados divulgados embasam todas as ações pertinentes tanto a nível de prevenção como de atendimento.
INDICADORES EPIDEMIOLÓGICOS
" O objetivo final da epidemiologia é produzir conhecimento e tecnologia capazes de promover a saúde individual através do alcance coletivo. No entanto, apesar de Ter saúde como sua preocupação fundamental, os dados com os quais lida referem-se fenômenos de não saúde: a morte ou doença no homem e fatores de degradação ou inadequação no ambiente."
MEDIDAS DE MORBIDADE E MORTALIDADE
*Na epidemiologia, morbidade e mortalidade sempre será a uma população pré-definida...
*Entende-se por população o conjunto dos que estão expostos a contrair a doença em um espaço de tempo determinado.
*Denominan-se coeficientes ou taxas as relações entre o número de eventos reais e os que poderiam acontecer (relativizando-se à população).
*A expressão quantitativa do agravo é dada por diferentes coeficientes de morbidade. Para fins operacionais, estes coeficientes são definidos como quocientes entre o número de casos de uma doença e a população.
*Em saúde pública, os coeficientes que medem morbidade específica são discriminados em coeficientes que enfocam a incidência de doenças e coeficientes que descrevem a sua prevalência.
INCIDÊNCIA: A incidência de doenças em uma população significa a ocorrência de casos novos relacionados à unidade de intervalo de tempo, dia, semana, mês ou ano. É a intensidade com que estão surgindo novos doentes em uma determinada população. Para efeito de estudo comparativo de incidência de doenças numa mesma população em épocas diferentes, ou em populações diversas numa mesma época, usa-se o coeficiente de incidência.
Coeficiente de incidência = nº de casos novos da doença em det. População e det. tempo x 10n hab.
População
10h : exponencial de referência. Quanto maior o número de casps em relação ao total da população maior é o expoente que se usa. No caso da AIDS. Se utiliza o 10 = 100.000
PREVALÊNCIA: A medida mais simples para prevalência é a frequência absoluta de casos de doenças, independente da época em que esta iniciou. O coeficiente é a medida que permite estimar, no tempo e no espaço, a prevalência de uma dada doença, fixado um intervalo de tempo, e todas as demais variáveis referentes a uma determinada população: idade ou grupo etário, sexo, ocupação, etc...
Coeficiente de prevalência = nº de casos conhecidos de uma determinada doença x 10n hab.
População
Prevalência instantânea ou pontual - É medida pela frequência da doença ou pelo coeficiente em um ponto definido no tempo.
LETALIDADE: É a medida da mortalidade específica. A letalidade mede o número de óbitos específicos por determinada causa.
INDICADORES EPIDEMIOLÓGICOS DA AIDS:
Número total de casos acumulados - medida pouco usada em epidemiologia. Este tipo de indicador praticamente só é utilizado em situações de "epidemia localizada" (em determinada região e tempo, com uma situação de exposição circunstancial e aguda). No caso da AIDS isto se justifica no início, quando a epidemia era nova e pouca conhecida, a tendência é que este indicador seja abandonado como medida desta epidemia.
Óbitos registrados - mede o número de atestados de óbito com registro em AIDS como causa mortis. Este dado nos aponta a taxa de letalidade e a sobrevida ao longo do tempo.
Taxa de letalidade - mede o número de óbitos específicos por determinada causa. No caso de AIDS significa o número de óbitos por AIDS em relação ao número de casos de AIDS registrados no período.
Prevalência de registro - mede a frequência de casos registrados (vivos) naquele momento temporal.
Coeficiente de prevalência - Relativiza a prevalência de registro à população atual do Estado, isto é, o quanto isto representa para cada 100.000 habitantes do RS.
Coeficiente de incidência - Relativiza o número de casos novos de AIDS notificados por ano à população do Estado naquele ano. Significa o quanto de casos novos representa para cada 100.000 habitantes durante aquele ano no RS.
2.2 DOIS MUNDOS, DUAS ESPERANÇAS
AIDS CLINICAL CARE
Set./96 - Vol. 8 - Nº 9
The Publishing Division of The Massachusetts Medical Society.
Apesar de seu tema - "Um mundo, uma esperança" (One World, One Hope) exposto nas camisetas e faixas cruzando Vancouver - a XI Conferência Internacional em AIDS em julho, transmitiu uma mensagem diferente. Nas sessões plenárias e pôsteres, mesas-redondas e conferências, dois mundos separados em relação à AIDS tornaram-se aparenntes.
Em um Mundo, regras otimistas. O progresso científico garantiu os últimos poucos anos rumo à erradicação da doença pelo HIV e sintetizou isto em apresentações estonteantes em Vancouver. Dosagens de carga viral utilizadas em conjunto com monitoração de CD4 tornaram possível uma precisão notável do prognóstico em pessoas infectadas. Estudos confirmaram repetidamente que combinações de 3 ou mais drogas anti-retrovirais podem tornar o vírus indetectável no soro; e existem evidências empíricasde que isto também ocorre nos linfonodos. Estes regimes parecem efetivos em fases precoces e tardias da infecção. Benefícios clínicos parecem seguir melhorias nos marcadores da doença. Drogas mais poderosas e menos tóxicas surgem no horizonte.
Em Vancouver, pela primeira vez, cientistas entregam-se abertamente a especulações proibidas. Alguns utilizaram modelos matemáticos para calcular quantos anos de tratamento serão requeridos para erradicar totalmente o vírus das células das pessoas e permitir assim a interrupção do tratamento. Outros sugeriram regimes de drogas intratecais para expulsar o vírus do seu último refúgio no sistema nervoso central. Outros ainda postulam esquemas para a prevenção efetiva de transmissão ocupacional, perinatal e mesmo sexual do HIV utilizando combinações anti-retrovirais profilaticamente. No mundo da AIDS, infecção por HIV evoluiu de uma condição rapidamente fatal para uma condição prevenível ou - na pior hipótese - cronicamente tratável, o que parece uma meta eminentemente realística.
No outro Mundo da AIDS, o modo é diferente. Demógrafos estimaram que por volta do ano 2010 a expectativa de vida média será reduzida de 66 p/33 anos na Zâmbia, de 70 para 40 anos em Zimbabwe e de 59 para 31 anos em Uganda, tudo "cortesia" do HIV e tuberculose. Na África, Índia e Sudeste Asiático onde se localiza mais do que 90% da infecção mundial por HIV, não estão disponíveis nem mesmo antibióticos simples utilizados para prevenir e tratar complicações da AIDS, muito menos o AZT e inibidores de protease.
No segundo mundo da AIDS, a maioria dos esforços anti-HIV enfocam realisticamente sobre a prevenção, mais do que sobre o tratamento. Algum progresso já pode ser reportado neste sentido: um programa agressivo de distribuição de preservativo na Tailândia evitou uma infecção estimada em 2 milhões de pessoas. A soroprevalência entre as mulheres grávidas vem diminuindo em clínicas urbanas e rurais. Ambos os números aqui são modestos. Progressos sobre uma vacina que poderia produzir resultados mais dramáticos são lentos. Neste lado está uma quantidade de doenças tratáveis que podem apenas serem sondadas. Para quem vive no segundo mundo da AIDS, toda esperança consiste em não infectar-se. Um teste positivo para HIV, de acordo com o Dr. Connie Osbôrne de Zâmbia, é visto pelos pacientes e médicos como o fim da linha.
Neste ponto da História da AIDS, este encontro internacional apresenta pouca penetração científica. Encontros menores, mais específicos agora servirão a esta proposta. Até o momento a conferência gigante retém uma importância única simplesmente por esta inesquecível justaposição. Ela ilustra um fato, facilmente contemplado em pequenas conferências de que os dois mundos rapidamente divergentes de AIDS - estão inexoravelmente entrelaçados. Eles estão delineados por fronteiras econômicas, não geográficas. Eles coexistem no EUA e na Europa, em Los Angeles em Paris e Bombay, em sua cidade e na minha.
Mesmo enquanto a ciência nos leva ao avanço das investigações, a "economia do vírus" vem se mostrando cada vez mais difícil de resolver.
Abigail Zuger, MD
Tradução: Cecília Cassal Corrêa.