NOTA DE REPÚDIO

À revista ÉPOCA

NOTA DE REPÚDIO

02.04.2018 - 15:19
10.04.2018 - 19:30

 

 À revista ÉPOCA

Brasília, 2 de abril de 2018

Prezados editores:

Gostaríamos de expressar nosso repúdio à matéria O novo azulzinho, publicada pela revista Época no último fim de semana.

Constatamos, com perplexidade, que o texto envereda por um terreno minado de insinuações, julgamentos e estigma – e que confunde o leitor com a desinformação.

A principal premissa da matéria – de que a profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) levaria ao abandono do uso do preservativo como forma de prevenção ao HIV – não encontra respaldo em nenhum estudo científico ou nas evidências colhidas por respeitados centros de excelência científica no Brasil e no mundo.

Ademais, ao insinuar que grupos de risco – termo felizmente em desuso desde a década de 1990 – são disseminadores de infecções sexualmente transmissíveis (IST) como o HIV, a revista reforça estigmas há muito superados, após décadas de luta e trabalho.

Além disso – e não menos grave –, a matéria coloca em cheque a confiabilidade das novas tecnologias de prevenção hoje existentes no país.

A PrEP hoje integra uma nova estratégia do Ministério da Saúde em sua histórica resposta ao HIV: a prevenção combinada, ou a oferta de variadas alternativas de proteção contra o HIV e outras IST. A estratégia reforça o respeito às liberdades individuais, atendendo a características e momentos de vida muito pessoais de cada usuário do Sistema Único de Saúde (SUS).

A PrEP já está disponível em 11 estados, em 36 serviços brasileiros. A partir de abril deste ano, será expandido para todos os estados brasileiros – e seu impacto na redução de casos de HIV tem sido demonstrado cientificamente.  

Diferentemente do que a matéria afirma, o estudo PrEP Brasil – recentemente publicado na revista científica The Lancet – demonstra que a profilaxia pré-exposição ao HIV aumenta o uso do preservativo entre os que a adotam.

Ademais, o não uso da camisinha não está restrito à população gay: ao contrário, de acordo com a mais recente Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira do Ministério da Saúde, esse comportamento tem sido lamentavelmente comum em vários grupos.

Por tudo o que foi dito, está claro que o momento é de promover a disseminação de informações claras sobre as estratégias de prevenção à disposição da população brasileira – em um esforço que tem envolvido governos, gestores públicos, movimentos sociais, a academia e demais segmentos sociais. Os meios de comunicação social têm enorme responsabilidade neste processo.

O repúdio foi igualmente expresso pela pesquisadora Beatriz Grinsztejn (https://www.facebook.com/beatriz.grinsztejn/posts/1881703728508409), pelo médico infectologista Rico Vasconcelos (https://www.revistaforum.com.br/prevencao-do-hiv-medico-infectologista-diz-se-arrepender-de-ter-dado-entrevista-a-epoca-sobre-prep/); pela sociedade civil, como a Clínica de Infectologia Manaus (https://www.instagram.com/p/BhDKKUVlnbP/); e por movimentos sociais como o Fórum das ONG/Aids do Estado de São Paulo (Foaesp) aqui e a Articulação Nacional de Luta contra a Aids (Anaids) disponível no link http://www.aids.gov.br/sites/default/files/noticia/2018/65476/nota_revista_epoca_anaids.pdf , por exemplo.

É por estes motivos, principalmente – pelo desserviço que presta, e pela discriminação que reforça –, que consideramos que a matéria veiculada na revista Época pode contribuir para um retrocesso quanto à histórica luta contra o HIV em nosso país e quanto aos avanços até aqui conquistados.

Atenciosamente,

Adele Schwartz Benzaken

Diretora do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/IVAids e das Hepatites Virais (DIAHV) do Ministério da Saúde