RECONHECIMENTO

“O Brasil tem um dos melhores programas de HIV/aids do mundo”, diz Drauzio Varella

Para médico a política brasileira de distribuição gratuita de medicamentos revolucionou a resposta global e ajudou a conter a epidemia

02.05.2018 - 17:28
02.05.2018 - 17:28

“Temos um dos melhores programas de HIV/aids do mundo – um programa que revolucionou o tratamento e reduziu a velocidade de disseminação da epidemia mundial ao adotar, em 1996, uma política de distribuição gratuita de medicamentos”, disse na última quinta-feira (12) o médico e escritor Drauzio Varella, durante o 2º Seminário de Promoção Social Saúde Preventiva do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), em Brasília. Segundo Varella, “se não tivesse adotado essa política, hoje, ao invés de 860 mil, o Brasil teria 18 milhões de brasileiros com HIV – mais ou menos a mesma prevalência da África do Sul”. Segundo ele, no país africano, que não adotou a mesma política de tratamento gratuito para pessoas vivendo com HIV, cerca de 10% da população adulta vive com o vírus. A palestra foi promovida pelo Senar – entidade ligada à Confederação Nacional da Agricultura – com apoio do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIAHV) do Ministério da Saúde.

Drauzio Varella – cujo canal no Youtube conta com mais de 800 mil seguidores – também destacou outras políticas públicas do Sistema Único de Saúde (SUS) que considera de excelência, como o Programa Nacional de Imunizações; o Sistema Nacional de Transplantes; a Estratégia Saúde da Família; e o Sistema de Atendimento Móvel de Urgência. “A criação do SUS foi a maior revolução da história da medicina brasileira; nenhum país no mundo com mais de 200 milhões de habitantes ousou dizer que a saúde é um direito de todos”, reiterou.

Após o evento, Drauzio Varella concedeu entrevista exclusiva ao aids.gov.br, destacando o sucesso da política nacional de atenção e tratamento ao HIV, que atualmente oferece tratamento antirretroviral gratuito a mais de meio milhão de brasileiros que vivem com HIV. O médico falou também dos desafios a serem superados na área de prevenção, principalmente entre a população jovem: “É preciso falar sobre sexualidade e doenças sexualmente transmissíveis nas escolas”. Assista à integra da entrevista.

 

PERFIL DA EPIDEMIA – Durante o 2º Seminário de Promoção Social Saúde Preventiva, o diretor substituto do DIAHV, Gerson Pereira, apresentou o contexto epidemiológico da epidemia de HIV no Brasil. “A epidemia de aids no país caracteriza-se como uma epidemia concentrada. O que isso significa? Que a prevalência dos casos de HIV entre a população geral é de 0,4%, mas que, entre algumas populações mais vulneráveis ao HIV, essa prevalência é maior que 1%”, explicou.

O diretor apresentou dados referentes a essas populações vulneráveis: “Entre homens que fazem sexo com homens, a prevalência de HIV é de cerca de 12%; já entre as trabalhadoras do sexo, é de quase 6%; e, entre pessoas que usam álcool e outras drogas, de 5%”.  

O diretor do DIAHV lembrou também a instituição, em 2014, da política do “tratamento para todos” – que ampliou o acesso ao tratamento antirretroviral a todas as pessoas vivendo com HIV –, destacando a importância do tratamento para a melhoria da qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV e para conter a epidemia: “A medida foi uma importantíssima estratégia de prevenção às novas infecções por HIV no país”. Gerson Pereira explicou o porquê. “Com o tratamento antirretroviral, há grande redução da quantidade de vírus circulante –   pessoas que vivem com HIV com carga viral indetectável têm uma possibilidade insignificante de transmitir o vírus a outra pessoa em relações sexuais desprotegidas.”

PREVENÇÃO – Quando recebeu o resultado positivo para HIV, em 1996, a servidora pública aposentada e ativista independente Beatriz Pacheco ouviu do médico que teria apenas seis meses de vida. Era o início da epidemia e os medicamentos antirretrovirais ainda não estavam disponíveis. Hoje, 22 anos depois, Beatriz mantem uma página no Facebook e realiza palestras por todo o Brasil para contar sua história e falar de prevenção.   “Não devemos assumir a marginalidade que a sociedade quer nós impor; não podemos vestir o preconceito, não podemos nós esconder”, disse. 

Quando recebeu o diagnóstico, Beatriz vivia uma relação estável e monogâmica. Estava casada, tinha quatro filhos adolescentes e se perguntava: “Por que eu?”. Ela conta que, antes de saber que vivia com HIV, “tinha preconceitos de toda ordem” e, por isso, acreditava que o agravo estava relacionado à conduta moral. “Ao contar a minha história, quero mostrar que o HIV não tem cara, que todas as pessoas são iguais – e que qualquer pessoa que faça sexo desprotegido pode ter HIV”, resumiu.

Por Aedê Cadaxa

Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais
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