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Manaus recebe apoio da ONG AHF para descentralizar o atendimento de HIV/aids

30.09.2016 - 13:51
23.01.2017 - 15:46

Manaus recebe apoio da ONG AHF para descentralizar o atendimento de HIV/aidsFátima Cardeal, da Agência Aids Nem só da revelação de esquemas fraudulentos têm sido os últimos dias da saúde pública de Manaus (AM). Bem na véspera de deflagrada a operação Maus Caminhos, que envolve desvio do dinheiro repassado à organização social  INC (Instituto Novos Caminhos) pelo Fundo Estadual de Saúde do Amazonas, um acordo foi selado na capital manauara visando melhorar o atendimento das pessoas vivendo com HIV/aids. Assinaram o compromisso, na tarde de terça-feira (21), o secretário municipal da saúde, Homero de Miranda Leão Neto, e Michael Kahane, diretor da ONG internacional AHF (Aids Healthcare Foundation) nos Estados Unidos. O objetivo imediato do acordo é descentralizar o atendimento dos soropositivos, hoje superconcentrado na FMT (Fundação de Medicina Tropical Heitor Vieira Dourado), redistribuindo-os pelos quatro SAEs (Serviços de Atenção Especializada) da cidade. A AHF, especializada em levar testagem onde as populações vulneráveis se encontram, entra com o apoio financeiro.   O termo foi assinado durante evento no auditório da Secretaria Municipal da Saúde de Manaus. Em seu discurso, o secretário Leão Neto preparou as pessoas na plateia e na mesa para o escândalo com o qual acordariam no dia seguinte (quarta, 21). “Esse projeto é imprescindível para tratar quem vive com HIV no nosso estado, um dos que registram maiores números de infecção pelo vírus. Mas o pior vírus no Amazonas não é o do HIV e sim o da corrupção e amanhã (21) vocês terão uma prova disso”, disse Leão Neto. “Se o nosso dinheiro fosse usado corretamente, talvez estivéssemos ajudando outros países em vez de receber ajuda.” Números escandalosos Os números das fraudes apareceram estampados nas capas dos jornais: mais de R$ 110 milhões desviados de cofres da saúde, envolvendo gestores, médicos, empresários, 13 mandados de prisão preventiva, quatro de temporárias, três de condução coercitiva, 40 de busca e apreensão, 24 de bloqueios de bens e 30 de sequestros de bens. As medidas são realizadas em residências e empresas nos municípios amazonenses de Manaus, Itacoatiara e Tabatinga. Já os números da aids no estado somam, entre 1983 e junho de 2014,  12.643 casos, representando 30,8% dos casos acumulados na região norte. Em 2013, a taxa de detecção do estado foi de 37,4 por 100 mil habitantes (83,4% maior que a média do país). Foram registrados, até dezembro de 2013,  2.853 óbitos por aids, representando 25,7% das mortes na região norte. Em análise à série histórica, o Amazonas apresentou importante variação no coeficiente de mortalidade (padronizado) por aids entre os anos de 2002 e 2013. Em 2002, o estado ocupava a 13ª posição dentre os 27 estados brasileiros, passando a ocupar a 3ª posição em 2013.  Quanto às fraudes, que certamente contribuem muito para piorar as estatísticas acima, espera-se que se faça justiça devolvendo aos combalidos cofres da saúde pública o que deles foi tirado. Enquanto isso, em socorro da situação alarmante da aids na Amazônia, em junho de 2014, o Ministério da Saúde, a Secretaria de Saúde do Estado do Amazonas e a Secretaria Municipal da Saúde de Manaus fizeram um acordo de cooperação  e passaram a construir uma agenda interfederativa. “Esse projeto de descentralização do atendimento foi escrito a várias mãos, com profissionais do município, do estado e do governo federal”, contou Adele Benzaken, coordenadora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, durante o evento. “Nosso grande desafio é ampliar o diagnóstico. E o segundo é vincular as pessoas aos serviços de saúde. Acabamos de fazer no Amazonas uma pesquisa relativa à sobrevida dos pacientes com aids. Ela é apenas de 95 meses. Isso é pouquíssimo tempo. E é assim porque mais de 90% iniciam o tratamento de forma tardia, com CD4 abaixo do que é recomendado.  Por isso, conclamo a todos a colaborarem com o projeto.” Navegadores A AHF está entrando com o suporte financeiro para fortalecer a estrutura das UBS (Unidades Básicas de Saúde) dentro das quais funcionam os SAEs. Ao todo são quatro SAES, cada um contando com dois infectologistas, dois farmacêuticos, duas enfermeiras e um ou dois assistentes sociais. A ONG, conforme explicou sua coordenadora no Brasil, Cristina Raposo, está contratando um infectologista e um farmacêutico a mais para cada SAE.  Cristina Raposo também contou que a AHF já contratou seis navegadores e os capacitou para atuarem em campo, basicamente  fazendo a ponte da descentralização entre usuários, a FMT e os SAEs. Adele Benzaken contou que, no início, a ideia da descentralização foi combatida por muitos profissionais da aids, inclusive, dentro da FMT. Um desses combatentes, o médico Ângelo Magela, estava na mesa do evento, falando em nome da Fundação, e se mostrou convencido de que o projeto trará benefícios. “Preocupa-nos a realidade de cada um que chega em busca de tratamento, tantos vivendo há sete ou oito anos sem diagnóstico”, disse. “Vendo a Adele, pessoa tão envolvida com a causa, em busca de soluções como essa parceria com a AHF, só posso dizer que tudo o que for para fortalecer nosso sistema de saúde, atendimento, diagnóstico, tratamento e prevenção é bem-vindo. Estamos à disposição para colaborar no que for preciso e necessário.  Coordenadora do Fórum de Organizações da Sociedade Civil do Estado do Amazonas, Evalcilene Santos, mais conhecida como Val, disse em seu discurso esperar que o dinheiro trazido pela AHF seja bem empregado. “Que nossa Manaus esteja comprometida não só no papel, mas no engajamento e no comprometimento das pessoas que estão recebendo esses recursos para que realmente sejam usados para cuidar de quem tem HIV. Queremos técnicos comprometidos com  pessoas, não com números”, falou Val.  Outra representante da sociedade civil que compôs a mesa, Sineide Gonçalves, coordenadora do projeto Viva Melhor Sabendo em Manaus, também destacou a importância do comprometimento de todos para o sucesso do projeto.  Michael Kahane foi de  poucas palavras. Tendo Cristina Raposo como tradutora, ele, que está no Brasil pela primeira vez, prometeu que, na próxima, vai falar português. “Eu ouvi falar desse projeto há um ano e desde então estava torcendo para que se tornasse realidade. Vou a cerimônias assim no mundo todo, mas essa vai ficar na minha vida porque considero esse trabalho muito importante, acredito nele. Agora, a minha parte é a mais fácil. Só vim aqui e assinei um papel. O trabalho difícil são vocês que vão fazer.” Sem pressão Após o evento, Adele Benzaken, que havia se reunido na véspera com representantes da sociedade civil para debater o projeto, explicou que ninguém será obrigado a sair da Fundação. “As pessoas que se tratam lá e querem seguir lá, terão seu direito garantido. O que faremos é mostrar que elas podem ter um acompanhamento em outro lugar. Precisamos desafogar esse centro de referência, que é a fundação, para que ele consiga funcionar como referência mesmo.”  A coordenadora do Programa de Aids de Manaus, Adriana Raquel de Souza Nunes disse que hoje a FMT responde pelo atendimento de 80% das pessoas em tratamento de HIV/aids em Manaus. “A população vai lá porque confia no tratamento que eles dão. Eles estão atuando desde o início da epidemia e a nossa rede de serviços é nova. Até 2013 tínhamos apenas três SAEs. Abrimos o quarto em 2014.”  Mas, todos concordam, a FMT  está sobrecarregada.  “Tanto que os próprios médicos lá de dentro começaram a indicar os SAEs para pacientes que estão chegando.  Muitos desses profissionais atendem também nos SAEs. Imagine que até pouco tempo um de nossos SAEs tinha 35 usuários e capacidade para 2.500”,  afirmou Adriana.   A Agência de Notícias da Aids viajou a Manaus (AM) para cobrir ações da descentralização do atendimento e do projeto Viva Melhor Sabendo a convite do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais      

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