HEPSUMMIT2017

Atividades do último dia da Cúpula incluíram discussões, debates e formulação conjunta de soluções

Importantes medidas foram adotadas para alcançar a eliminação das hepatites até 2030

03.11.2017 - 16:34
14.11.2017 - 01:57

[node:title]O terceiro e último dia da Cúpula Mundial de Hepatites, 3 de novembro, começou com a mensagem: o financiamento não deve ser um obstáculo à eliminação. Na sessão, presidida por Amanda Kgomotso Vilakazi Nhlapo, do Departamento Nacional de Saúde da África do Sul, e por John Ward, dos Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos, os panelistas subiram ao palco para discutir as diversas e inovadoras formas de financiamento para que os países assegurem suas respostas à hepatite. Charles Gore, presidente da Aliança Mundial contra as Hepatites, abriu a sessão destacando que apenas 35% dos planos nacionais estão atrelados a estratégias de financiamento. A OMS estima que a resposta à hepatite custará aproximadamente U$ 6 bilhões por ano para todos os países de renda baixa e média. Isso é pouco comparado com a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, que custou U$ 3 bilhões, e com os Jogos do Commonwealth na Índia, que consumiram U$ 4 bilhões. A questão principal é que os recursos estão disponíveis, mas não estão sendo usados de modo eficiente.

A eficiência foi o tópico abordado na apresentação de Jeremy Lauer, da OMS. Ele ressaltou a importância da integração das hepatites dentro dos sistemas de saúde. Não há razão para pensar em estrutura e novas aquisições em termos separados, se os sistemas já estão disponíveis. Se pudermos conjugar compras de medicamentos com benefícios à saúde, a hepatite pode ser a solução, não o problema.
 
Após essas apresentações, foi aberto um painel de discussão moderado por Eduardo González Pier, do Centro para o Desenvolvimento Global, com palestrantes do Banco Mundial, do Centro para a Análise de Doenças, do Centro Biomédico de Ruanda e do Ministério da Saúde da Colômbia. A sessão reafirmou os pontos anteriores de que o financiamento doméstico será crucial e a forma mais efetiva de alcançá-lo será através da integração. Destacando as diferenças em relação à resposta ao HIV/aids, os panelistas ressaltaram que o mundo evoluiu do foco em uma única área de doença e agora devemos trabalhar para desenvolver sistemas de cobertura de saúde universais e sustentáveis.

O financiamento sustentável está intrinsicamente ligado à vontade política, que foi outro ponto compartilhado pelos panelistas. David Wilson, do Banco Mundial, ressaltou que muitos países não dedicam uma parcela suficiente do orçamento nacional para a saúde. No Paquistão, apenas 1% do PIB é destinado ao orçamento de saúde. Homie Razavi, da Fundação Centro para Análise de Doenças, observou que os países gastarão menos eliminando a hepatite do que se não fizerem nada. Um país que reafirmou o seu compromisso foi a Colômbia. Nos últimos anos, o país obteve tratamento para hepatite C a preços mais baixos por meio da Opas e agora está comprometido a colocar até 400 pessoas em tratamento por ano até 2020.

Após o intervalo, a segunda sessão do dia continuou com o “Foco Estratégico 4: diferentes mecanismos de financiamento para programas de hepatites virais”, presidida por Adele Benzaken, do Ministério da Saúde do Brasil, e por Philip Duneton, da Unitaid. A sessão reafirmou os principais pontos discutidos mais cedo, incluindo reforçar a importância da integração dentro dos serviços de saúde e estimular os ministros das Finanças a investir.

Uma das questões-chave levantadas foi como trabalhar não apenas com o próprio ministro de Saúde de cada país, mas também com o ministro das Finanças. Para os ministros das Finanças, a eliminação pode nem sempre parecer custo-efetiva; mas, embora a pesquisa tenha mostrado que enquanto os custos iniciais se estenderão por longo prazo, haverá economia nos gastos de saúde  à medida que menos pessoas serão hospitalizadas por complicações de hepatites. Homie Razavi comparou os custos iniciais envolvidos na prevenção e tratamento das hepatites aos recursos necessários para comprar uma casa. Quando se compra um imóvel, tem-se um custo inicial, mas depois que o débito é pago, haverá economia de recursos no longo prazo. Portanto, o ativismo junto às instâncias decisórias é crucial para a resposta à eliminação.

A sessão encerrou-se com um debate entre Jeremy Lauer, da OMS, e Chinburen Jigjidsuren, do Ministério da Saúde da Mongólia. Foi discutida a importância dos grupos da sociedade civil para defender o financiamento junto aos governos. Jigjiksuren reafirmou a importância da pesquisa baseada em evidências. Todos os panelistas concordaram que não há solução mágica, mas existem ferramentas para construir um plano sustentável.

Após o almoço, na sessão “Inovação para a aceleração”, Henry Cohen, do Projeto ECHO, do Uruguai, explicou como o projeto objetiva ampliar o acesso ao cuidado em hepatites articulando equipes de especialistas de um centro de excelência acadêmica com os clínicos de cuidados gerais em comunidades localizadas. Ele concluiu: “O Projeto ECHO é uma alternativa custo-efetiva de tratar pacientes infectados pelo HCV em larga escala, utilizando a rede já existente de profissionais da atenção primária. Essa abordagem pode reduzir substancialmente a taxa de hepatite C crônica nos Estados Unidos”.

A seguir, Christian Trepo, do INSERM, França, discutiu os resultados de uma agenda de pesquisa integrada em HIV/hepatite B na França, explicando que grande parte do trabalho necessário à criação dos novos agentes antivirais diretos (AAD) para hepatite C teve por base a pesquisa em HIV. “A biologia comum entre a hepatite B e o HIV proporciona uma estratégia de erradicação combinada”, afirmou, concluindo que há cerca de 50 novos medicamentos na linha de pesquisa para a hepatite B e muitos deles provavelmente serão aprovados.

Os finalistas em Inovação (Freke Zuure, Emalie Huriaux, Anila Goswami, Lien Tran, Momoko Iwamoto, Ammal Metwally) discutiram maneiras inovadoras para enfrentar as hepatites virais. Emalie Huriaux, do Projeto Infrom e CalHep, discutiu a estratégia de eliminação em elaboração para a cidade de San Francisco, baseada na inclusão de todas as pessoas infectadas, especialmente as populações marginalizadas.

Anila Goswami, do Instituto do Fígado e Ciências Biliares (ILBS) de Nova Delhi, discutiu em seguida o modelo de coordenação de enfermagem em hepatites introduzido em sua instituição, a única na Índia a operar com tal modelo. A iniciativa, que delegou tarefas médicas às equipes de enfermagem, permitiu aos coordenadores de enfermeiros monitorar o cuidado de mais de 1.500 pacientes com hepatite C até agora, e, se ampliada, pode proporcionar uma enorme expansão do tratamento da Índia.

Por sua vez, Lien Tran, do Hepatitis Victoria, Austrália, discutiu o projeto “Little HepB Hero” – a transformação de crianças em embaixadoras de hepatites nas famílias e na comunidade, seguido pela apresentação de Ammal Metwally, do Egypt, que debateu a triagem e a eliminação da hepatite C de aldeias inteiras do Egito, a viga-mestra da estratégia de eliminação naquele país.

Em seguida, Freke Zurre, do Serviço Público de Saúde de Amsterdam, apresentou a testagem domiciliar de HCV-RNA para homens que fazem sexo com homens (SHS) – parte de uma abordagem integrada de eliminação da hepatite C entre essa população. Finalmente, Momoko Iwamoto, do Epicentro dos Médecins Sans Frontières, Camboja, discutiu o modelo ótimo de cuidado para a hepatite C no Camboja.

O evento de três dias encerrou-se com uma nota de esperança, com o lançamento da Declaração de São Paulo sobre Hepatites Virais, negociada pelos representantes dos governos. A Declaração compromete-se a adotar uma abordagem ampla e coordenada para apoiar a implementação das intervenções-chave definidas na Estratégia Global da OMS para as Hepatites. Em resposta, a Aliança Mundial contra as Hepatites e suas 252 organizações parceiras lançaram a Declaração Comunitária de São Paulo sobre as Hepatites Virais, solicitando que os governos concedam às hepatites virais a mesma prioridade dada ao HIV/aids, à malária e à tuberculose; que o estigma e a discriminação sejam adequadamente combatidos; e que os governos compram os compromissos dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável para que “ninguém seja deixado para trás” e que os governos “se esforcem para alcançar primeiro os que estão mais longe”.

“Este não é apenas mais um pedaço de papel para nós. É uma questão de vida ou morte para mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo”, disse Charles Gore. “É imperativo que os países ajam imediata e decisivamente para acabar com as inúmeras e desnecessárias mortes a cada ano”.

A solenidade concluiu-se com as tocantes palavras de Gottfried Hirnschall, da OMS, e de Adele Benzaken, do governo brasileiro, que prestaram homenagem à liderança e visão de Charles Gore, por ocasião de sua despedida como presidente da Aliança Mundial contra as Hepatites no final do ano. A intensa rodada de aplausos foi testemunho do nível de apoio, inspiração e compromisso que Gore levou às pessoas, organizações e governos em todo o mundo. Ele continuará seus esforços como diretor da Hepatitis C Trust no Reino Unido.

Assessoria de Comunicação
Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais

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