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Uma reflexão sobre o ativismo durante a conferência

Em artigo, José Roberto Pereira, do Fórum de ONG/aids de São Paulo, fala sobre estigma e protagonismo

Conteúdo extra: Galeria de fotos

Participar de um debate cujo tema foi “O ativismo está morto” suscitou-me muitas questões sobre a atual conjuntura dos movimentos sociais, do ativismo e dos atores inseridos nesse contexto. Inúmeros pontos foram abordados, muitos dos quais servem para levantar reflexões e formas de se descobrirem novos caminhos para um ativismo exitoso que, apesar da exigência de basear-se em senso crítico e rigor metodológico, não deve perder sua marca solidária, seu compromisso irredutível com a vida, e vida com qualidade.

Com apoio na tradução de Kátia Edmundo (CEDAPS/RJ), neste breve relato procuro, sem pretensões desassistidas, fazer uma cuidadosa adaptação dos temas debatidos, sendo, contudo, fiel às ideias, de forma a trazer luz sobre esse tema tão importante para a sustentabilidade da resposta mundial à epidemia e o compromisso inelutável com os valores genuínos do ativismo.

Vamos aos pontos.

O ativismo está morto?
. O ativismo não está morto porque cada vez mais se amplia a articulação em rede, de forma a fortalecer os pontos focais em suas localidades, bem como potencializar as intervenções dessas redes.

. Observa-se que a PVHA está mostrando o seu rosto. Com isso, ela não somente ajuda a reduzir os estigmas como também persegue e defende seus direitos com mais afinco. Mesmo em países desenvolvidos como a Inglaterra, por exemplo, é fundamental a ação de ativistas para que as políticas incluam as PVHA.

. É importante estarmos atentos para a necessidade de avaliar e adequar as estratégias e os temas a serem abordados, uma vez que a aids sempre apresenta novos e diferentes desafios. Um bom exemplo disso é que, há dez anos, nós lutávamos por medicamentos e hoje lutamos pelo acesso a esses medicamentos.

. O que parece desafiador, nos dias de hoje, é que se fala muito sobre ativismo, mas pouco se debate o tema entre os próprios ativistas. Nossas agendas estão tão comprometidas que pouco tempo temos para autoavaliar o ativismo.
. Talvez um dos caminhos para que o ativismo e os ativistas sigam em frente seja a inclusão de pautas da sociedade civil nas agendas das instituições, como agências, ONG, universidades, governos etc., para que incorporem as ações da sociedade civil nas suas agendas e possam contribuir para a capacitação desses ativistas.

. Sabe-se que existem dois tipos de ativistas e ativismo: os de âmbito nacional e os de âmbito internacional. Os primeiros atuam na base, contribuindo para fortalecer a dispensação de medicamentos, a qualidade do atendimento nos hospitais, o monitoramento dos orçamentos da saúde e as estratégias de prevenção local. Os de âmbito internacional interferem em grandes estruturas governamentais e comerciais. Ambos são fundamentais. Contudo, foi observado que as redes que atuam em esferas mais amplas devam levar em consideração as ações locais, uma vez que é nas bases que o possível êxito ou fracasso das estratégias ocorre de fato.

. Outra importante questão é sobre o quanto os ativistas podem auxiliar os governos – e já vêm auxiliando desde sempre -, pressionando grandes doadores para que não reduzam os recursos destinados às metas internacionais ou às frentes de lutas comerciais. A comunidade internacional é sensível à luta contra aids, e a pressão dos ativistas revela-se capaz de interferir tanto nas decisões das grandes agências e laboratórios quanto no volume de recursos que venham a ser disponibilizados pelos países ricos.

Recursos para o ativismo e capacitação
. É preciso levar em conta, também, que tanto os ativistas quanto o ativismo necessitam de recursos para desenvolver seu advocacy e suas interlocuções. Assim, não se deve ter receio de solicitar apoio para esse tipo de ação, tão importante para respostas nacionais e internacionais. Contudo, os recursos devem ser devidamente aplicados e monitorados, mediante metas e papéis claramente definidos. Por isso, devemos nos fazer sempre a seguinte pergunta: “Do que necessitamos? Dinheiro? Informação? Fortalecimento?”

. Também temos o desafio da educação formal. Grande parte dos ativistas não têm formação enciclopédica e escolar suficiente para enfrentar grandes debates, mas todos sabem que são atores preciosos em suas localidades. Muitos não têm educação formal, não porque a abandonaram, mas porque as condições sociais não são adequadas. Este é um desafio enfrentado por alguns países da África, a Ásia e certamente da América Latina e do Leste europeu.

Estigma
. As trans ainda sofrem muito preconceito por parte das equipes de saúde. Em alguns lugares do país, os médicos, em sua maioria, nem as tocam nas consultas. Por isso, é preciso incidir muito para que essa população seja incluída. Inclusive, ressalta-se, até mesmo para sensibilizar as agências internacionais e governos no sentido da inclusão desse grupo em locais como este (conferências internacionais). A visibilidade reduz o estigma e deve começar em casa (espaços de discussão política), vez que as trans sofrem muitos outros estigmas além do HIV.

. Sabe-se que o ativismo em HIV/aids é diferente das outras formas de ativismo por ser cultural, o que exige um grande esforço. Além de denunciar violação de direitos, exigir ciência e tecnologia e lutar por recursos, ainda precisa quebrar paradigmas, derrubar tabus, mudar sistemas culturais e morais enraizados nas mais diversas sociedades, romper costumes seculares, normas estabelecidas, ideologias, velhas moralidades. E, por isso, é tão complexo.
A participação em fóruns internacionais impulsiona o ativismo?

. Sem dúvida que sim! É um momento único para realizar articulação política, encontrar doadores e firmar parcerias, além de congregar pares locais e de outras localidades do mundo. Por isso, a participação de ativistas nas conferências devem ser garantidas e ampliadas. Entretanto, vale ressaltar, enfrentamos um desafio enorme quando voltamos à nossa localidade. Não é simples dar uma devolutiva adequada aos nossos pares. Quando retornamos à comunidade local, voltamos a encarar de frente nossos velhos desafios. Aqueles companheiros que não puderam estar aqui muito pouco absorvem daquilo que experimentamos e, não raro, nos observam com olhares suspeitos; afinal, “estávamos na Europa!”. Mas não há dúvida de que é possível, sim, empoderar a comunidade local com informações sobre novas estratégias aprendidas, além da possibilidade de levar a ela novas fontes de recursos.

. Todos levam em conta a voz dos ativistas porque, de alguma forma, eles dão o tom das agendas. Nossa ação direta junto a públicos específicos certamente faz com que se avalie com mais cautela o que é melhor para a luta. Este é um exemplo concreto de que os ativistas internacionais são as “comportas acumuladas da experiência dos ativistas de base”; eles “consultam a base e desembocam nas mesas de decisões”.

. Deve-se ter cuidado para que o ativismo não absorva a forma hermética da conferência, que vem carregada de formalidades e protocolos diplomáticos (lucro, vendas, laboratórios, visibilidade de governos, celebridades, lançamentos etc.), porque sabemos que o ativismo pode morrer de fato se deixarmos de lado a solidariedade, nosso propósito mais caro. Ser ativista é questão de sentimento e escolha, não uma imposição.

Protagonismo
. É certo que, após o diagnóstico positivo, o desejo de se tornar ativista acaba aflorando, como observou Bill Clinton na sua fala no evento. Isso se dá porque, além da compreensão sobre o tema, há um aumento da disponibilidade para o tema e uma ampliação do sentimento de luta. Por isso, as PVHA têm papel fundamental no ativismo. Quando se descobre ser soropositivo, uma nova sensação se abre: o desejo de ajudar, mobilizar, ou seja, um novo projeto de vida. Com o diagnóstico, surge um novo sentimento: o de que viver é bom, embora isso tenha um alto preço a ser pago, pois nem todas as pessoas voltarão a ver esse indivíduo como um dia o viram. Somente quem se revela sabe o alto preço que se paga.

Ativismo jovem
. Sugere-se que o ativismo jovem esteja morto. Cremos que não, porque essa responsabilidade também é nossa, e devemos assumi-la. Temos o papel de ajudar os jovens ativistas, uma vez que eles somente estarão preparados para seguir em frente quando nós, que estamos na estrada há muitos anos, pudermos orientá-los para assumir as novas frentes. A maioria de nós era jovem quando começou. Temos que orientar os novos ativistas para que se apropriem das leis a fim de que o advocacy, nosso e deles, repercuta nas grandes mesas de decisão.

. É preciso constituir formas inteligentes de ativismo, garantir treinamento permanente e diversificar sempre as formas de fazer interlocuções, tanto aquelas que atendam e garantam as demandas locais, como as que provoquem mudanças estruturais.

Por José Roberto Pereira (Fórum de ONG/Aids do Estado de São Paulo – PBMQ – CNAIDS/SE)

 

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Mais notícias sobre o encontro
Site oficial do evento
Revista “Resposta +” (em inglês)

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