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No Vale do Jequitinhonha, jovens são cobiçadas pelos motoristas que cruzam a BR-116. Garotas ignoram que estão sendo ....

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Correio Braziliense


No Vale do Jequitinhonha, jovens são cobiçadas pelos motoristas que cruzam a BR-116. Garotas ignoram que estão sendo vítimas. Ou que a exploração sexual é crime


Medina (MG) - Todo dia, no fim da manhã, as irmãs Daniela e Fabiana, de 15 e 16 anos, andam 3 km da fazenda onde moram até a BR-116, a Rio-Bahia. Usando chinelos e roupas puídas, as duas só aparentam a vaidade comum à idade quando olhamos em seus rostos. O relógio marca 11h20. Ambas estão com a face coberta de maquiagem. As cores usadas pouco combinam com o jeito de meninas. Tampouco com o horário. Nos olhos, sombra azul. Na boca, batom vermelho escuro. 'Compramos um estojo por R$ 3 no bazar', conta Fabiana.


As irmãs descem o morro até a rodovia para aproveitar a parada dos caminhoneiros. Na hora do almoço, podem ganhar uns trocados. Trocados mesmo. Dificilmente mais do que R$ 15 por dia. As duas são vítimas da exploração sexual. Parte do dinheiro vai para os pais, que trabalham na roça. O restante é gasto em compras: um pequeno estojo de maquiagem, brincos e perfumes baratos. As meninas moram em um dos lugares mais pobres da Região Sudeste, o Vale do Jequitinhonha.


Depois do almoço, Daniela e Fabiana não voltam para casa. Continuam às margens da Rio-Bahia esperando o pôr-do-sol. É quando os motoristas de caminhão aproveitam os quartos e a segurança do posto, a 80km da divisa de Minas Gerais com a Bahia, para repousar. Só as irmãs não descansam. Voltam para casa à noite. É a única hora que Daniela tem medo. 'Sempre rezo para não aparecer bicho, principalmente cobra e aranha', confessa. Ela não tem medo da exploração, mesmo usando camisinha raramente.


A falta de temor não significa que as duas estejam conformadas com a vida que levam. Simplesmente não enxergam outra opção. Fabiana não freqüenta mais a sala de aula. A escola onde estudava só vai até a 5ª série. Mas mesmo quando ainda tinha o que estudar, Fabiana não levava os estudos a sério. 'De que ia adiantar prestar atenção no que a tia falava se eu não ia poder continuar os meus estudos?', pergunta. Ouvindo com atenção, Daniela, que está na 4ª série, concorda com a cabeça. E completa: 'Só vou para a escola de vez em quando. E mesmo assim é porque a minha mãe quer', afirma. Ela está consciente de que seus dias de estudante estão próximos do fim.


A BR-116 é palco de outras tragédias. Meninas de cidades como Cachoeira do Pajeú, Medina, Itaobim, Divisa Alegre e Pedra Azul ficam em postos de combustível, pontos de venda de mel e queijo, além dos tradicionais restaurantes de beira da estrada. Acabam sendo prostituídas por R$ 5 ou R$ 10. Apesar disso, a rede de enfrentamento da exploração sexual na região sofre para tirar as meninas da situação.


O Centro de Referência da Assistência Social de Medina, responsável
há quatro meses pelo atendimento de crianças e adolescentes vítimas de exploração e abuso sexual, tem 40 vagas. E só atende sete meninas. A Associação do Projeto 18 de Maio, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também tem estrutura para atender 50 vítimas. Mas apenas 15 estão recebendo atenção. Todas mulheres adultas. Nenhuma possui histórico de exploração sexual. 'Nosso público-alvo são pessoas vitimadas pela violência sexual, mas não conseguimos atingi-los', admite Dagmar da Silva Amaral, coordenadora da associação. 'As meninas se excluem, colocam-se à margem das políticas públicas e simplesmente não aparecem'.


Na região impera a falta de diálogo sobre sexo. 'Esse é um dos principais tabus do norte de Minas Gerais. As famílias, muitas vezes, são hipócritas e tratam os adolescentes como se não tivessem dúvidas, desejos ou curiosidade', observa Élbio Ramalho, conselheiro tutelar de Medina. Em casa ou nas escolas, o assunto é proibido. A conseqüência se mostra cruel. As meninas não sabem que são vítimas. Ou que exploração é crime.


Bruna e Anne são atendidas pelo conselho. Descobriram a sexualidade nas ruas, assim como a maioria das meninas e meninos do Vale do Jequitinhonha. 'Não ouvi na escola falarem de sexo e nem de camisinha. Na verdade, só falavam de coisas chatas', informa Bruna, 14 anos. Ela saiu da escola este ano. Estava na 3ª série, depois de ser reprovada por duas vezes na 2ª série. 'Não consigo ir bem em matemática. Acho que sou burra mesmo', lamenta. A mãe é alcoólatra e já agrediu a filha. A menina ganhou as ruas de Medina há seis meses. Queria arrumar dinheiro e calar a fúria materna. (Erika Klingl)



Apelo das ruas


Os professores e diretores da Escola Estadual Professor Querubim Cirino de Matos não precisam de estatísticas para acompanhar o abandono escolar. O número de alunos que começa o ano letivo em uma turma nunca é o mesmo na época da formatura. 'Perdemos muitos estudantes para a rua, para a exploração sexual e para as drogas', observa Maria Eunice Rodrigues Bastos, diretora do colégio de ensino fundamental no município de Medina.


Ela tenta mudar a triste realidade das salas de aula. Conseguiu a parceria de quase todos os professores. 'O conselho tutelar já veio aqui fazer palestras e temos trabalhado leituras sobre todos esses temas nas turmas de 5ª a 8ª séries', observa a pedagoga. Apesar da iniciativa, ela mesmo reconhece que é preciso lutar pela conscientização. Inclusive dos familiares. 'Ainda é pouco, principalmente porque não conseguimos trazer os pais para o enfrentamento', comenta.


O esforço da diretora do colégio de Medina não impediu que Júlia e Luciana, ambas de 14 anos, abandonassem os bancos escolares. As duas amigas se conhecem desde crianças. E, adiantam, uma sempre seguiu os passos da outra. Até mesmo quando, inconscientemente, se deixaram levar pela exploração sexual. Ambas são vítimas, mas ainda não conseguem enxergar os males que enfrentam.


A primeira a largar os estudos foi Júlia. Há cinco meses, deixou de ir à escola. Não demorou para aparecer com roupas novas e um telefone celular. 'Não gostava de ir para a aula. Nunca podia conversar e os professores viviam me enchendo de perguntas', conta.


Um mês depois, Luciana seguiu o exemplo da melhor amiga. 'Ficar na rua é bem mais divertido, não tem nem comparação', comenta. As duas amigas são vaidosas. Atualmente, são atendidas pelo Centro de Referência da Assistência Social em Medina. Ainda assim, nenhuma das duas conseguiu se livrar da condição de vítima da exploração sexual.


Mais uma vez, o problema está na falta de atrativos. 'Oferecemos cursos de manicure e cabeleireiro mas não conseguimos ainda criar um ambiente lúdico e excitante a ponto de concorrer de igual por igual com as ruas', admite Edirlene Bruna de Almeida, educadora social do centro de referência. A concorrência é brutal e, de certa forma, até mesmo desanimadora. Mas não para quem trabalha no centro. (EK)
 


Raio X da exploração


SUDESTE
IDH da região: 0,745


Dos 1.666 municípios, 240 estão na Matriz Intersetorial de Enfrentamento da Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes, elaborada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência


Em 86% dos municípios, há registro de prostituição de crianças e adolescentes



MINAS GERAIS
IDH do estado: 0,719


Dos 853 municípios, 92 estão na matriz


Em 87 das cidades do estado, há casos de prostituição de
crianças e adolescentes



MEDINA
IDH da cidade: 0,645


O município está em 759º lugar no estado, em 1.571º na Região Sudeste e em 3.840º no ranking nacional


Localizada a 480km de Belo Horizonte, a cidade tem uma das mais baixas taxas de alfabetização de adultos do estado, girando em
torno de 70%


O município registra denúncias de prostituição de crianças e adolescentes que são explorados, principalmente, na rodovia que corta o Vale do Jequitinhonha


A cidade tem 40 escolas de ensino fundamental e apenas uma de ensino médio


As taxas de evasão e distorção idade-série superam em mais de 150% os índices estaduais

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