Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais

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HISTÓRIAS POSITHIVAS

Fui sobrevivendo – mas demorei muito tempo pra me aceitar”, diz Silvia sobre os primeiros anos após o diagnóstico com HIV

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A despeito de sua forte militância à frente do Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP), não é o fato de viver com HIV – evidentemente – o que define a uruguaia Silvia Aloia – mas sim a coragem, o idealismo e a energia com que viveu os seus 46 anos até aqui, movida por um natural espírito de liderança. Silvia vive em Porto Alegre (RS).

(Fundada em 2005, a organização não governamental MNCP atua como rede em defesa dos direitos de mulheres vivendo com HIV/aids – formando-as nas temáticas de direitos humanos, estigma e discriminação, saúde sexual e saúde reprodutiva e controle social de políticas públicas e promovendo o seu fortalecimento individual e coletivo, entre muitas outras ações.)

A história de Silvia com a capital gaúcha e com o Brasil começou em 1982, quando ela era uma menina de 12 anos e sua família fugia do regime militar uruguaio. A adaptação não foi fácil. “Mas hoje meu coração é brasileiro”, garante.

Aos 16 anos, precoce, decidiu morar sozinha. Aos 21, em 1990, engravidou da filha Lauren e – com o apoio da família – encheu-se de planos para o futuro. “Ser mãe era um sonho”, diz. Aos oito meses de gestação, porém, durante o pré-natal, o susto que mudou a sua vida: Silvia descobriu que tinha HIV.

O período – como não poderia deixar de ser – foi marcado por grande sofrimento. Silvia foi demitida do emprego, em clara manifestação de discriminação, e ficou “em estado de choque”. “Eu tinha muito, muito medo”, revela, lembrando que se “sentia suja”, mas que sabia que não tinha feito “nada demais”. Some-se a isso o temor de a filha também nascer com HIV e a pressão dos médicos para que revelasse sua sorologia à família – o que ela não queria fazer. “Fui sobrevivendo – mas demorei muito tempo para me aceitar”, diz. A fase ruim foi encerrada com alegria aos 16 meses da filha, quando descobriu que Lauren não tinha HIV. “Foi um momento de grande emoção”, lembra, com um sorriso.

Mas Silvia continuava em negação sobre sua própria sorologia – vivendo com HIV, mas sem tomar medicamentos durante mais de oito anos. No início da década de 2000, passou a perceber os sintomas da doença – estava quase sem cabelo e sentia-se constantemente mal –, mas ainda assim relutava em procurar pelos serviços de saúde. “Um dia não aguentei mais e fui ao médico: eu tinha várias infecções oportunistas e minha contagem de células CD4 havia caído para apenas quatro – o que significa a possibilidade de morte iminente”, explica, com emoção velada. Foi então que Silvia decidiu contar tudo para Lauren. A filha tinha então 12 anos e entrou em pânico. Em 2003, Silvia começou a tomar os medicamentos antirretrovirais. “Depois de um ano e meio, voltei a dizer: eu sou a Silvia”.

(Os linfócitos T-CD4 são as células mais importantes do sistema imunológico, que protege o organismo contra infecções e doenças. A sua contagem revela quantas células CD4 estão presentes em uma única gota de sangue; quanto maior o número de células CD4 no organismo, melhor. Desde dezembro de 2013, com a adoção do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Manejo da Infecção pelo HIV em Adultos, o Brasil indica o tratamento antirretroviral para todas as pessoas com HIV, independentemente dos níveis de CD4 – o que vem resultando no aumento no número de pessoas com HIV em tratamento e com carga viral indetectável. A propósito: carga viral indetectável é a condição de uma pessoa soropositiva que atingiu a supressão do vírus como resultado do uso regular de medicamentos antirretrovirais. Quem tem carga viral indetectável não está curado do HIV, mas, enquanto mantiver o tratamento antirretroviral, tem o vírus controlado e preso em certas células do organismo – sem se multiplicar, sem danificar o organismo e sem ser transmissível.)

Hoje, 16 anos depois de estar à beira da morte, Silvia tem carga viral indetectável. (É quase um milagre, e prova do que a fé e a boa adesão ao tratamento antirretroviral conseguem alcançar.) Ela cursa Administração em Sistemas e Serviços de Saúde na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) e lidera o MNCP, lutando pelos direitos das mulheres vivendo com HIV/aids. Está casada com um companheiro sorodiferente (quando um dos parceiros tem HIV e o outro, não) que a faz muito feliz; há pouco, quando a filha de Lauren nasceu, tornou-se avó. É extremamente respeitada por sua liderança na luta contra o HIV/aids e em suas interfaces, na saúde coletiva, com temas correlatos como gênero e população negra, por exemplo.

Mas o final feliz e o ativismo não amainam a realidade: “Não é fácil ter HIV; não é fácil tomar medicamentos”. Silvia resume: “Se você tem HIV, precisa ter boa adesão ao tratamento, além de acesso à informação e a todos os seus direitos”.

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