Visitas de solidariedade e dor

A camioneta de cabine dupla percorre a avenida Vladimir Lenine até desembocar na gigantesca feira livre de Xiquelene. É uma das áreas mais movimentadas de Maputo, capital de Moçambique. O mercado a céu aberto lembra um formigueiro humano com gente se movimentando para todos os lados, vendendo qualquer coisa ­ frutas, pedaços de carne, galinhas, sofás, ervas e toda sorte de quinquilharia plástica, ordinária e barata que o resto do mundo pôde jogar aqui. O lixo vai sendo deixado no meio da rua, formando montanhas, mudando a rota dos veículos e exalando um cheiro forte, que não se compara a nenhum outro.

Um pouco mais à frente, vai começar o trabalho de visita domiciliar a doentes de aids das enfermeiras Albertina e Irene. Pela manhã, elas percorrem alguns bairros da periferia norte da capital de Moçambique. Em uma pequena valise, carregam luvas e sabão para lavar as feridas dos doentes. Levam também dezenas de saquinhos amarelos com antibióticos, analgésicos e pomadas para uso externo. Visitam uma média de sete a dez famílias por dia.

Albertina e Irene trabalham para a Amodefa, Associação Moçambicana para o Desenvolvimento da Família, uma das afiliadas da Monaso, Rede Moçambicana de Organizações contra a Sida. É na parceria entre as duas entidades que aparece uma das contribuições brasileiras ao combate à aids na África. Trata-se de uma das frentes de cooperação do projeto Ntwanano, que busca aumentar os cuidados aos doentes e fortalecer a sociedade civil.

As fichas que as enfermeiras preenchem em cada visita foram elaboradas junto com os brasileiros. E mesmo as observações sobre o paciente e a família, a situação em que vivem, o cuidado nas perguntas e o respeito a cada um deles foram discutidos entre as duas partes. O antropólogo Marcos Benedetti é quem faz esse corpo-a-corpo com os técnicos das organizações moçambicanas. A outra frente desse projeto é a de tratamento e capacitação dos médicos, coordenada pela infectologista Rosana Del Bianco, do hospital Emílio Ribas, de São Paulo.