Mapeamento feito pelo governo de Moçambique e divulgado em outubro do ano passado revela que falta água na maioria dos postos de saúde do país. Apenas 58,2% das unidades sanitárias usam seringas descartáveis ou, pelo menos, esterilizadas. Uma considerável parcela dos partos realizados, mesmo quando a mãe é comprovadamente soropositiva, é feita sem luvas por conta da falta do insumo. Estima-se que quase 20% das novas infecções pelo HIV ocorram via transmissão vertical da mãe para filho. A maioria dessas crianças morre antes de completar cinco anos.
Por outro lado, parte da população ainda não acredita na existência do HIV. Essas pessoas imaginam que o vírus vem do próprio preservativo ou aparece por razões sobrenaturais. Com o país dividido por 14 línguas e incontáveis dialetos e culturas diferentes, mais de 60% da população só têm acesso aos curandeiros para tratar problemas de saúde. É um exército de 72 mil curandeiros contra apenas 500 médicos, num país de 20 milhões de habitantes.
Herança do período colonial e da crença de que as nações ricas têm uma dívida com os africanos, a corrupção instalou-se em todos os escalões como um direito adquirido. Todo mundo tenta tirar proveito das situações mais diversas. Mas quem ganha é a elite negra, que desfila pelas ruas de Maputo, a capital, com suas camionetas de cabine dupla e ar condicionado. Na população, o índice de pobreza absoluta atingia 69,4% em 1999.
Nas áreas rurais o analfabetismo passava dos 85%. Mais de 70% dos que viviam nas cidades não tinham eletricidade. E 91% das casas de todo o país não têm água encanada. “Somos dependentes até na corrupção”, diz o moçambicano Mia Couto, 49 anos, considerado um dos 12 maiores escritores africanos do século 20.