“Viemos para ensinar”

A coordenação do projeto Ntwanano é de Ricardo Kuchenbecker, epidemiologista do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Além de Marcos Benedetti e Kuchenbecker, participam da equipe Fernando Seffner, especialista em saúde pública e professor da UFRGS, a médica Rosana Del Bianco, e os enfermeiros Sérgio Aquino e Luciana Teixeira. “Tínhamos aprendido muito com a nossa epidemia, já tínhamos condição de ensinar”, diz Rosana Del Bianco, infectologista do Hospital Emílio Ribas de São Paulo e que coordena a frente de tratamento e capacitação. “Viemos aqui para ensinar o que já aprendemos”.

Mas os profissionais brasileiros nem sempre foram recebidos com hospitalidade. “Chegamos a ser humilhados quando informamos que estávamos oferecendo 100 tratamentos, mas nenhum dinheiro”, lembra Seffner. Só a poderosa FDC, Fundação Para o Desenvolvimento da Comunidade, dirigida por Graça Machel, viúva do ex-presidente moçambicano Samora Machel e atual mulher de Nelson Mandela, contava na época, somando as ajudas prometidas, com mais de 10 milhões de dólares.

Ao oferecer tratamento anti-retroviral, o Brasil dava também capacitação e treinamento contínuo para os profissionais moçambicanos, lembra Rosana Del Bianco. O Hospital de Dia, uma ala reformada pela Agência Francesa de Cooperação, dentro do gigantesco Hospital Central de Maputo, está se transformando em um “hospital-escola” para o ensino e a prática do uso dos anti-retrovirais. É lá que os doentes são atendidos.

Rosana estima que atualmente existem entre 120 mil e 150 mil pacientes necessitando do coquetel, entre os cerca de 1,5 milhão de infectados pelo HIV em Moçambique. Para Natália Dava, da Associação Moçambicana para o Desenvolvimento da Família (Amodefa), o número é bem maior: ela calcula que 300 mil pacientes já estariam precisando de anti-retrovirais.

A situação piora quando se constata que, em todo o país, o número de médicos é de no máximo 500. Com 20 milhões de habitantes, Moçambique tem um médico para cada grupo de 40 mil pessoas. A Organização Mundial da Saúde recomenda que a proporção seja de um médico para mil habitantes. Para completar, dos 500 médicos que trabalham em Moçambique, menos de 200 estão capacitados para prescrever os medicamentos anti-retrovirais e lidar com seus efeitos colaterais.