O sorriso de Cacilda

Na segunda casa, a paciente Cacilda Pedro Mandlate, 27 anos, está estendida sobre uma esteira no meio do cômodo que serve de quarto e sala. Já teve casa, companheiro e dois filhos. Mas quando o marido descobriu que ela estava doente, mandou-a embora e foi com as crianças para a África do Sul, um dos seis países que fazem fronteira com Moçambique. Por causa de suas riquezas minerais e de uma indústria crescente, a África do Sul virou uma espécie de “eldorado” para os africanos.

Quem cuida de Cacilda é a mãe. Ela nunca mais teve notícias da família e há seis meses não consegue andar. As enfermeiras observam as pernas enormes, cheias de bolhas e feridas. Os pés são enfaixados com trapos. Cacilda diz que não dorme há muitos dias, mesmo com a morfina para aliviar a dor e que deveria facilitar o sono.

Apesar da doença e da perda dos filhos, Cacilda parece mais jovem do que é e responde sorrindo a cada pergunta. “Sarcoma de Kaposi”, diz a enfermeira, anotando na ficha. O longo questionário, que depois será passado ao médico, inclui todos os sintomas e alterações notadas desde a última visita, na semana anterior. Se tem tosse, se come bem, a cor da urina de uma mulher que não menstrua há dois anos.

Pode não parecer, e Cacilda nem sabe, mas ela é uma privilegiada. Está no minúsculo grupo de doentes que recebem o coquetel, uma associação de três anti-retrovirais produzidos pela Índia e colocados num único comprimido. “Se a menina se curar do sarcoma, tem chances de viver”, diz a enfermeira, já fora do barraco.

Na frente da casa, junto da rua de chão, uma moça vende laranjas em montinhos de três. A doente tinha se queixado de prisão “porque não come frutas, nem verduras e porque passa o dia deitada”. Albertina pede à moça que ceda algumas laranjas, de forma a “ajudar sua colega a curar-se”. A vendedora explica que os filhos estão passando fome e que precisa do pouco dinheiro das frutas para dar a eles o que comer. Cacilda fica sem as laranjas.