“Ritos de purificação”

A situação do tratamento dos doentes de aids de Moçambique também impressiona. Os 12 medicamentos anti-retrovirais oferecidos no Hospital de Nampula vão exclusivamente para funcionários públicos. “Por que só eles têm o direito de viver?”, pergunta Paulo Nelson. Há uma razão para isso: o HIV/Aids já atingiu pelo menos 30% dos funcionários públicos, o que pode levar a uma falta extrema de profissionais da saúde, professores, militares e até policiais.

A incidência da epidemia nesse grupo específico pode comprometer todos os serviços do Estado, arriscando a própria segurança do país, e agravando ainda mais a epidemia. Como em vários outros países da África, a aids faz Moçambique correr o risco de criar um hiato entre uma geração e outra, perdendo até mesmo as tradições que são passadas de pais para filhos.

Nesse contexto, as crenças sócio-culturais contribuem para o aumento da epidemia. Em muitas regiões, a doença é vista como algo sobrenatural, uma espécie de “mau olhado”. Em certos distritos, 40% das jovens disseram ser normal apanhar do marido quando pedem que eles usem o preservativo nas relações sexuais. Em alguns lugares da província de Gaza, no sul, assim que o marido morre, a mulher deve passar por “ritos de purificação”, entre os quais dormir com um parente mais próximo do falecido. Não se fala em preservativo.

Em algumas províncias, especialmente na Zambézia, região central, pratica-se o chamado “sexo terapêutico”. Quando um homem se descobre portador de uma DST, incluindo aids, é aconselhado por curandeiros a fazer sexo com uma parceira ocasional, “de preferência à força e sem o uso de preservativo”. Essa “violação”, acreditam os médicos populares, faria parte do tratamento.

Embora Moçambique não seja o país africano mais afetado pela Aids (a situação é pior em Botsuana), especialistas acham que a epidemia vem crescendo porque o governo só agora pensa em declará-la como “emergência”. Parte dessa conduta se deve às duas guerras que se seguiram a partir dos anos 60 ­ a de libertação e a civil, esta última encerrada apenas em 1992. Porém, no programa dos vários partidos que disputaram em dezembro a terceira eleição presidencial da história do país, a questão da aids apareceu entre as últimas prioridades, depois da fome, da água, da saúde e da educação.

Mesmo com esse cenário desolador, Moçambique é também um país de muitas esperanças. Embora ainda com pouquíssimas indústrias e sem muitas riquezas naturais, a nação tem a vantagem de avançar para a democracia, apesar de estar cercada de ditaduras e regimes fortemente autoritários. Nas eleições de 1º e 2 de dezembro de 2004, o partido vencedor foi a Frelimo, Frente de Libertação de Moçambique, que comandou as duas grandes guerras do país. Os quase dez partidos concorrentes, no entanto, poderão fazer propostas e criticar os que estão no poder. No mínimo, é um bom começo.