Remédios, a difícil escolha

Arlindo Augusto Fernandes, 49 anos, é o terceiro presidente da Kimdlimuka, associação cujo nome significa “despertar” e que reúne portadores do HIV e doentes de aids em Maputo. Os presidentes anteriores já morreram. Arlindo também já teria morrido, se não estivesse entre as cerca de cinco mil pessoas que atualmente recebem o coquetel no país. Coquetel é o nome popular para o conjunto de medicamentos anti-retrovirais que, combinados, vêm reduzindo, desde 1996, as doenças oportunistas e a mortalidade dos doentes de aids em todo o mundo.

Arlindo já esteve internado várias vezes. Não conseguia mais comer, teve tuberculose, as pernas paralisadas. Não conseguia respirar e muitas vezes deixava a associação sangrando pelo nariz. Um ano de medicação já permitiu que ele voltasse à presidência de Kimdlimuka e retomasse sua vida, apesar de ainda magro e da visível fragilidade. Sua mulher, Cândida Francisco, chegou a ficar nove meses internada, mas também já voltou a trabalhar.

Deolinda Manhique, 40 anos, perdeu o marido com aids quando ele tinha 46. Infectada, ela passou meses doentes até iniciar o tratamento. “Voltei a namorar. Nós dois usamos preservativos”.

Arlindo, Cândida e Deolinda são privilegiados. Em Moçambique, entre 150 mil e 300 mil pessoas com HIV ou aids estariam necessitando do coquetel. No Brasil, todos os que precisam, pouco mais de 151 mil pessoas, recebem de graça os anti-retrovirais. Os brasileiros também fazem exames que medem a carga viral e o número de CD-4 ­ células que indicam o nível de resistência do organismo.

Em Moçambique, o Ministério da Saúde espera ampliar para 8 mil, até o final de 2004, o número dos que recebem os anti-retrovirais. Quem quiser comprar os medicamentos na farmácia ou na vizinha África do Sul, paga cerca de 450 dólares mensais, além de 166 dólares pelos exames, a cada seis meses. Só a elite do país tem esse dinheiro.