No rastro dos mineiros e da aids

A província de Gaza, no sul de Moçambique, faz fronteira com a África do Sul e seus moradores são os mais tentados pelo trabalho nas minas de diamante e ouro do país vizinho. De lá, muitos trazem dinheiro e o HIV ­ combinação perigosa, que espalha o vírus por onde essas pessoas passam. Mais de 16% dos adultos em idade sexualmente ativa de Gaza estão contaminados, taxa considerada abaixo da realidade.

Manjacaze, um pequeno distrito dessa província, distante quatro horas de carro de Maputo, é uma das áreas mais afetadas pela presença dos mineiros. Várias associações comunitárias trabalham com as mulheres infectadas por seus maridos que voltam das minas e os órfãos que eles acabam deixando.

O nome de uma das mulheres atendidas é uma ironia: Felizarda Novela. Quando a equipe de saúde se aproximou da minúscula palhota, como são chamadas as cabanas de forma circular, encontrou um cobertor cobrindo um corpo à sombra de uma árvore. De fora, só estavam parte das pernas e os pés, que de tão finos faziam pensar em alguém muito doente, ou já morto.

Ao lado, uma bacia com uma fatia de mamão. O fotógrafo teve tempo de escolher as poses e a agente de saúde pôde consultar suas fichas antes que Felizarda descobrisse o rosto e mostrasse um olhar de súplica, sem espanto. Os seios, esvaziados, caiam sobre o ventre.

Felizarda tem 42 anos e quatro filhos ainda vivos. Responde com frases na língua changana e ainda tem humor para fazer rir a agente de saúde. Em Moçambique, nas questões de aids, quem faz o papel de agente de saúde são os “ativistas”, gente voluntária, nem sempre treinada, que mora no mesmo bairro.

A ativista que visita Felizarda conta que ela viveu períodos curtos com vários outros homens depois que o primeiro marido morreu ou desapareceu, na sua volta das minas da África do Sul. Quando os mineiros retornam, sempre trazem algum dinheiro e dormem com quantas mulheres desejarem.

Um outdoor espalhado por Maputo e pela Estrada Nacional 1, que atravessa o país quase junto à costa, mostra um capacete de mineiro com a lanterna na “testa” e a frase em fundo branco: “Onde está o mineiro? Não voltou por causa da Sida.” O marido de Felizarda voltou. Mas abandonou a família assim que a mulher adoeceu. Sobrecarregadas, subnutridas, as mulheres costumam cair doentes antes dos parceiros que a infectaram.