“Nunca vi ninguém chorar”

O machimbombo que passa por Namialo, que estava bastante vazio, só vai pegar estrada uma hora depois, quando não há mais espaço algum. A vila de armazéns, pousadas e feiras ao ar livre se estica ao longo da estrada, bem no entroncamento para a cidade-porto de Nacala. As capulanas, tecidos que as mulheres enrolam no corpo, são as únicas cores que quebram o cinza e a poeira do acostamento da estrada, repleta de picapes e caminhões lotados de carga e de gente.

Logo atrás da feira principal, fica o GATV de Namialo, sigla para Gabinete de Aconselhamento e Testagem Voluntária, o correspondente aos CTAs do Brasil, os centro de testagem anônima. Em toda a província de Nampula, só existem três GATVs. O posto de Namialo foi aberto em 2000, na esperança de receber cerca de 100 voluntários por mês. Hoje, atende a metade.

Entre os testados, a taxa de infectados pelo HIV fica em torno de 8%, índice que corresponde às estimativas oficiais para toda a província, considerada a segunda mais baixa do país. A estimativa para Maputo, por exemplo, é de 17,3%. Em Sofala, província da região central do país, o índice chega a 26,5%. No Brasil, a prevalência está em torno de 0,6%.

Em Namialo, a situação é mais grave do que a revelada pelos números. Entre as poucas meninas e mulheres jovens que fazem o teste, a taxa de infectadas chega a 30%. Sinal de que a epidemia ainda vai se tornar bem mais grave do que já está. “Poucos querem fazer o teste, pois sabem que se descobrirem que estão com o vírus, só ficarão mais angustiados. Sabem que não temos remédio nem ajuda para oferecer”, diz Tecla Abdala, 48, enfermeira de nível médio, conselheira do GATV e que não esconde sua desesperança.

Aqueles que se descobrem soropositivos são orientados a não fumar, não beber, a comer mais frutas e legumes, dormir melhor, não fazer trabalhos pesados e usar sempre o preservativo. “Qual jovem vai querer ou será capaz de seguir esses conselhos?”, pergunta Tecla. Ela mesma já deu o resultado positivo a dezenas deles. “Parecem assustados, mas nunca vi ninguém chorar”.