Ana David, coordenadora nacional da Monaso, faz uma ressalva. “Não esqueçamos que este país é um dos mais corruptos do mundo”. De acordo com ela, ao ajudar com apoio técnico, capacitação de profissionais e fundamentos de direitos humanos, a cooperação brasileira introduz uma “nova relação” em Moçambique e nas organizações que atuam no país. “O dinheiro deixa de ser o mais importante”, diz Ana David.
Esse novo conceito, segundo ela, está permitindo criar novos projetos e buscar mais recursos. Isso porque muitas organizações e países ricos se negam a oferecer dinheiro para programas desordenados e projetos que não têm direcionamentos, objetivos e modos de atuação bastante claros. O que não impede, porém, que Moçambique seja uma espécie de paraíso das chamadas instituições cooperadoras internacionais, que pagam os melhores salários do país e cujos funcionários andam em carros de luxo, contrastando com a miséria generalizada.
Para os críticos dessa cooperação com ares de caridade, trata-se de uma forma disfarçada de novo colonialismo. O governo de Moçambique tem planos e promessas de mudar e unificar essas contribuições. Por enquanto, cada instituição ou país que manda seu dinheiro para cá, quer que ele seja aplicado de acordo com suas regras e conceitos.
“A África ainda é vista como uma grande massa negra”, diz Eduarda Cipriano, diretora da FDC. Natasha Dava, psicoterapeuta responsável pelos programas de HIV/aids da Amodefa, faz o contraponto. “Ao colocar em pauta a discriminação, os direitos do doente e a necessidade de que seja cuidado de alguma forma, a cooperação brasileira trouxe uma outra esperança”.
Fernando Seffner lembra que a idéia era levar a outro país uma discussão de ordem política e econômica em torno da questão da aids. “No Brasil, a chegada da epidemia coincidiu com a redemocratização do país, o que está acontecendo com Moçambique”, compara. Ao sair de uma guerra e se libertar do colonialismo português, o país africano adotou um regime de partido único, com o conseqüente controle dos meios de comunicação e a imobilização da sociedade civil. A prioridade era manter as rédeas políticas, o que atrasou em mais de uma década a reação oficial contra a aids.