Morte digna

É esse conjunto de cuidados que os moçambicanos resumem com o verbo mitigar ­ tomar iniciativas e promover esforços que possam reduzir o estigma, o sofrimento, e permitir uma sobrevida ou uma morte com um mínimo de dignidade. “Mitigar não é curar, nem acabar com a dor. É oferecer cuidados paliativos, para que [os doentes de aids] não morram jogados em um canto”, diz Seffner.

É comum, por exemplo, que a desinformação e o preconceito levem as famílias a não darem banhos em seus doentes nem lavar suas roupas, com medo de serem infectadas. Muitos dos grupos, no entanto, têm pouco ou quase nada a oferecer aos doentes, a não ser solidariedade e cuidados higiênicos uma vez por semana.

Fernando Seffner e Marcos Benedetti coordenaram um curso para enfermeiras que fazem visita familiar a doentes e que se sentiam desesperançadas por nada terem para oferecer. Mitigar os efeitos da Aids também significa cuidar minimamente dos órfãos. Muitos são adotados por parentes ou vizinhos às vezes mais interessados em ficar com os bens que os pais falecidos deixaram do que cuidar da criança.

Em 2003, a equipe brasileira coordenou um encontro em Maputo sobre o exercício da “advocacia”. O termo, correspondente ao “advocacy” no Brasil, significa um conjunto de ações e pressões para que os direitos e novas conquistas sejam garantidos. A organização Pathfinder Internacional financiou o treinamento. Dois brasileiros soropositivos, Ana Paula Prado, do grupo Arco Íris de Brasília, e Francisco Pedrosa, do Grupo de Resistência Asa Branca de Fortaleza, participaram do encontro.

Um outro treinamento, realizado este ano em Beira, no litoral central do país, tratou do "viver" com Aids e teve o apoio da ONG inglesa Alliance. “Quando os brasileiros diziam que conseguiram medicamentos com ações na Justiça, os moçambicanos não sabiam o que era isso. Descobre-se que no país não se pode contar com a Justiça”, diz Seffner.

A “advocacia” se estende ao Poder Legislativo e mesmo ao próprio presidente. Em 2002, o Kindlimuka foi recebido pelo presidente da República que ouviu relatos de vários portadores e doentes. Nada mudou. No mesmo ano, a Assembléia da República aprovava lei que proibia qualquer discriminação contra trabalhadores portadores do HIV ou doentes de aids. A lei se limita a empregados com contrato ­ o mesmo que a carteira assinada no Brasil ­ o que beneficia menos de 2% dos trabalhadores do país.