A morte sem dignidade

No quarteirão 53 do bairro Três de Fevereiro, dia dos heróis nacionais, as enfermeiras encontram Alberto Tambo Cossa, 37 anos, ainda vivo, mas em coma há dias. Não pesa mais nada e tem as costas e as nádegas tomadas por feridas. O quartinho escuro de pedaços de folhas de zinco está quente e cheira mal. A enfermeira puxa a esteira para perto da porta, de forma a entrar um pouco de ar e afugentar as moscas.

A mãe de Alberto passou a cozinhar do lado de fora e não tem mais condições de dar banho e cuidar do filho. Albertina, cheia de paciência e de sorrisos, pesada nos seus mais de 120 quilos, senta-se num banco sob o sol e passa a dar instruções a uma vizinha. “Nós precisamos de vocês, a mãe não pode mais nada. Tem que dar banho nele, tirar esse mau cheiro, passar pomada, mas tem que ser com luvas. Tem que ajudar ele a comer, colocar na boca”.

Irene, a outra enfermeira, vai preenchendo a ficha e separando os remédios ­ analgésicos, antibióticos, pomadas, uma caixa de luvas. A vizinha é uma ativista, voluntária que visita os doentes próximos com freqüência. Dá banho e lava a roupa daqueles que são abandonados em quartinhos, porque a família tem medo de se infectar.

A mulher de Alberto foi embora antes mesmo que caísse doente. Ele viveu com várias outras até ficar gravemente enfermo. A primeira deixou um menino, Nafatal, hoje com 12 anos. O garoto observa os visitantes entre as panelas espalhadas pelo chão. Parece indiferente.

Alberto vai morrer logo, mas as enfermeiras o tratam como se ainda fosse viver muito. “Ele pode morrer, mas nossa função é fazer com que sofra menos, que tenha um pouco de dignidade”, diz a enfermeira Albertina Joaquim Machaila, 51 anos, que chega por volta das 7h ao Hospital de Dia e encaminha para consultas ou exames os pacientes que já a esperam.

Lá pelas 9h sai para as visitas depois de selecionar as fichas e separar os medicamentos. Irene Buque, 67 anos, a outra enfermeira, acompanha Albertina nesse ritual. As duas cuidam dos doentes há mais de 20 anos, quando a Aids nem nome tinha e elas não sabiam do que morriam seus pacientes.