Assim que se libertou de Portugal, em 1975, Moçambique declarou-se marxista-leninista, provocando preocupações e reações armadas nos seus vizinhos do apartheid a África do Sul e a então Rodésia (atual Zâmbia). Os dois países passaram a financiar a guerrilha interna, assumida pela Renamo, Resistência Nacional Moçambicana. Influenciado e financiado pela então União Soviética, Samora Machel declarou o fim do feudalismo, do colonialismo, do capitalismo, do obscurantismo e do tribalismo.
Para ele, era “preciso matar a tribo para construir a nação”. Foi um dos seus pecados maiores, na visão de historiadores. As tribos não aceitaram as novas “estruturas” do partido Frelimo e as práticas e poderes tradicionais se mantiveram, o que fortaleceu a guerrilha da Renamo, que dominou boa parte das áreas rurais do país.
Agora, ao reduzir a importância dos 72 mil médicos tradicionais, o governo repete o mesmo erro, dizem os especialistas. Já há uma percepção da importância dos curandeiros, mas ainda pequena. Uma publicação da Unaids, de setembro de 2000, fala da “colaboração com médicos tradicionais na prevenção do tratamento do HIV/aids na África Sub-Sahariana”.
No final de outubro de 2004, foi lançado o Segundo Plano Nacional de Combate ao HIV/aids, um documento de 120 páginas que retrata o cenário atual e traça diretrizes para os próximos cinco e dez anos em Moçambique. O plano quer reduzir de 500 para 350 o número de infecções diárias até 2005, e para 150 nos próximos dez anos.
Os médicos tradicionais, no entanto, ocupam apenas algumas páginas do documento, que alerta para as enganosas promessas de cura da aids e as práticas de rituais onde os curandeiros fazem pequenos cortes em vários dos seus fiéis, utilizando a mesma lâmina. Organizações como a FDC e a própria Metramo têm uma certeza: ou as campanhas do governo se aliam e preparam os curandeiros para lidar com a epidemia, ou os números da aids em Moçambique só tenderão a aumentar.