No bairro dos ferroviários ainda hoje correm trens de passageiros e se vêem ali as casas de arquitetura refinada, construídas pelos portugueses, e hoje ocupadas por muitas famílias. Nesse bairro, mora Laura Carlo Cumbe, 20 anos, rosto de traços fortes e bem feitos, que mostram tristeza e revolta. O marido foi embora assim que soube da doença e nunca mais deu notícias.
As duas filhas pequenas, de 4 e 2 anos, brincam sobre ela. Laura está estendida sobre uma esteira à sombra de uma árvore conhecida como mafureira, muito comum na região. A maioria dos pacientes deita-se sob a copa das mafureiras para aproveitar a sombra nas horas mais quentes do dia.
Além das mafureiras e da inconsciência de que muitas vão morrer, as jovens mulheres doentes de aids de Moçambique têm outro cruel ponto em comum: o abandono do companheiro. Muitos estão infectados e já adoeceram ou vão adoecer, mas desaparecem como se assim pudessem escapar da morte e do estigma da doença. Em Moçambique, assim como na África em geral, há mais mulheres infectadas que homens, o que aumenta o preconceito e o desprezo por elas.
Os poucos estudos no país mostram que é o comportamento dos homens, aliado à desinformação e o pouco poder das mulheres, um dos principais motivos do crescimento descontrolado da epidemia. No entanto, especialistas dizem que as maiores causas disso são a miséria, os costumes, os efeitos da guerra e a lenta e confusa resposta dos países ricos à epidemia no continente, especialmente na África Sub-Sahariana, onde vivem quase 65% dos 39,4 milhões de pessoas que vivem com HIV/aids no mundo, incluindo adultos e crianças (dados do Programa das Nações Unidas sobre o HIV/Aids Unaids/2004).