Aparentemente, não é dinheiro que falta em Moçambique. “Falta fazer o dinheiro chegar aos programas que mais necessitam”, diz Telva Barros, da Unaids, o programa das Nações Unidas para a Aids. Além dos fundos multilaterais, há 15 agências de cooperação de países ricos instaladas no país. As grandes ONGs e financiadoras internacionais estão todas ali, muitas funcionando em casas amplas de bairros nobres, cujo aluguel mensal pode passar dos 5 mil dólares. “Algumas chegam ali determinando o que temos de fazer com seu dinheiro”, reclama Diogo Milagre, secretário executivo adjunto do Conselho Nacional de Combate à Sida (Aids).
Poderoso e interministerial, cabe ao CNCS administrar o dinheiro que entra no país e traçar as diretrizes de combate à epidemia. Mas os fundos que chegam do governo dos EUA, por exemplo, vêm com o carimbo de que não podem ser usados para incentivar o uso do preservativo. Devem ser gastos para pregar a abstinência, o retardo no início das relações e a redução no número de parceiros. Algumas instituições religiosas vão pelo mesmo caminho.
Para os especialistas, essa postura ignora totalmente os costumes das diferentes regiões do país. No norte de Moçambique, por exemplo, de maioria muçulmana, a poligamia é prática comum. No litoral da mesma região, relações com múltiplos parceiros, especialmente entre os jovens, são aceitas como regra. Já no sul, de maioria católica, os negros com algum poder ou dinheiro têm várias amantes e namoradas, além da mulher em casa.