Governo ainda ignora curandeiros

O “doutor” Soba Ibrahim, 44 anos, tem um “terceiro olho”, herdado do avô, capaz de enxergar a doença dos pacientes do outro lado de uma cortina. O “doutor” Soba atende num “consultório” modesto numa estreita travessa da avenida Angola, na região nordeste de Maputo. O bairro é pobre e o esgoto escorre a céu aberto. Ao lado, fica a mesquita Madassa Chaludia, que é seu ponto de referência.

Nos cartazes que distribui ­ “Nzembe Ya Pungo, o Deus dos Feiticeiros”, como ele se apresenta ­ há uma extensa relação dos males que cura. “Aids e retardamento do vírus”, “recuperação do amor perdido” e de “bens roubados”, “falta de sorte”, “desemprego”, “maus espíritos”. Soba se apresenta também como “grande mestre em necromancia” ­ aquele que o poder de adivinhar por meio de evocações aos mortos.

Na sala de recepção, pouco iluminada, há um televisor ligado com a imagem tremida. “Não podemos dizer que curamos aids, porque as autoridades não deixam, mas aqueles que foram desenganados pelos médicos, passam por aqui e saem com saúde”, diz o “doutor” Soba, mostrando o pequeno “santuário” ao lado de onde recebe os pacientes. Para entrar, é preciso tirar os sapatos. No chão, uma mistura de símbolos que vão de metais, ossos de animais, moedas, conchas do mar e velas acesas.

O lugar é escuro e cheira a incenso. No fundo, uma cortina cor de vinho. “O paciente fica atrás da cortina”, explica. “O terceiro olho enxerga todos os males que afligem aquela pessoa. Então eu preparo os medicamentos, que são feitos de folhas e raízes”.A consulta custa 100 mil meticais, valor em moeda moçambicana que equivale a pouco menos de 15 reais. Por esse preço, “doutor” Soba também é capaz de destruir inimigos. “Se você teve uma coisa roubada, meu trabalho vai trazer seu bem de volta. E o ladrão, pum, vai morrer”.

Ele se queixa dos poucos ganhos e da pouca consideração das autoridades. Sonha em vir trabalhar no Brasil. “Queremos congressos internacionais, como fazem os médicos convencionais”, cobra. “Aqui na África negra, nós, os médicos tradicionais, somos mais importantes que os médicos dos hospitais”.