Folha de abóboras

Pela diversidade lingüística (14 línguas e dezenas de dialetos), Moçambique tem também uma variedade de culturas. Os costumes do sul são diferentes do centro e do norte. Nas áreas rurais, e entre as mulheres, o analfabetismo chega a 99%. E uma minoria entende apenas alguma coisa do português, a língua oficial do país. “É preciso conhecer a linguagem e a simbologia de cada região”, diz Eduarda Cipriano.

Por exemplo: para se falar em DSTs, é preciso dizer “doenças que se apanham na esteira” ­ o lugar onde a maioria dos moçambicanos mantém relações sexuais. “As organizações internacionais não sabem disso e nem querem aprender”, constata Eduarda. “Agem como se todo mundo pensasse igual a eles”.As suas críticas se estendem à elite negra que governa o país. Segundo ela, essa fatia da população quer se mostrar civilizada e acha que não deve aprender a pensar como os grupos das diversas regiões. “Há uma confusão entre analfabetismo e ignorância. Eles podem ser analfabetos, mas têm sua cultura”.

Caberia aos governantes e às organizações “brancas” atentarem para isso. Por exemplo, diz Eduarda, as pessoas mais simples, especialmente nas áreas rurais, só acreditam naquilo que vêem. Como o HIV não é visível, acham que a doença é uma questão sobrenatural, e que nesse caso só o curandeiro tem poderes para lidar com ela. Não adianta dizer que o vírus é um verme que sai ou entra pelo pênis, porque eles não vêem e não acreditam.

Eduarda diz que o mais importante é que o curandeiro se convença da existência do vírus e dos seus meios de transmissão, mesmo que seus pacientes não entendam isso. “Então, se em lugar de mandar sacrificar uma galinha preta, ele disser para o paciente que deve usar o preservativo, ele vai usar”.