Escolhendo quem vai viver

Todas as quintas-feiras, no “hospital de dia”, cuja entrada se dá pela avenida Eduardo Mondlane, na região central de Maputo, são recebidos os candidatos ao tratamento com anti-retrovirais. Uma equipe médica avalia se o paciente está dentro dos critérios preconizados pela Organização Mundial de Saúde ­ os sintomas da doença, nível de células de defesa e a carga viral. Uma equipe multidisciplinar vai dizer se o paciente tem condições de entender o uso dos remédios e de seguir o tratamento com o rigor necessário.

É a “escolha de Sofia” de quem vai poder viver e de quem certamente morrerá. “Os candidatos são testados antes, para saber se entenderam que devem tomar os remédios nos intervalos corretos e se adotarão hábitos de vida mais saudáveis”, diz Rosana Del Bianco, médica do hospital Emílio Ribas (SP) que vai a Moçambique com freqüência para coordenar o treinamento dos médicos.

O médico Rui Bastos tem fama de contestar os que defendem o tratamento como única solução para a epidemia. Primeiro, ele diz, a prevenção é fundamental. Segundo, num país onde boa parte da população passa fome, oferecer apenas os medicamentos não resolve. “A comida é tão importante quanto os anti-retrovirais”, diz o médico. “O HIV agrava a pobreza e a pobreza agrava o HIV”.

A médica Rolanda Manuel, 41, é a chefe do comitê de tratamento de HIV/Aids do Hospital Central. Rolanda e Rui Bastos ocupam uma sala modesta no primeiro pavimento da dermatologia, por onde se sobe por uma escada de incêndio. Os dois enfrentam um desafio que, visto em números, parece insuperável. Como oferecer 300 mil tratamentos, quando no momento apenas 5 mil doentes são tratados? E como oferecer remédios a pacientes que passam fome e que vomitam simples aspirinas?

“Para vencer a Aids, o governo precisa pensar no desenvolvimento do país”, diz Rui Bastos. “Acabar com a fome é uma das formas de reduzir a aids”.Organizações como a Comunidade Santo Egídio oferecem uma cesta de alimentos a pacientes de vários hospitais que estão recebendo os anti-retrovirais. A comunidade, italiana, sabe que sem comida os medicamentos só farão mal.