Sem enxadas, nem sementes

No mesmo espaço do GATV de Namialo, funciona a seção distrital de HIV/Aids da Cruz Vermelha. O propósito da seção é fazer visitas domiciliares a famílias que têm alguém doente de aids. Na área que reúne pouco mais de 30 mil habitantes, a grande maioria vivendo em regiões rurais distantes, 20 ativistas visitam 26 famílias onde se sabe que há doentes. No ano passado os ativistas receberam 14 bicicletas, mas os pneus finos, impróprios para o terreno acidentado, estouraram rapidamente. Sem lugar para comprar câmaras de ar ou colas para conserto, 12 das bicicletas já foram abandonadas.

Para o trabalho dos ativistas, faltam luvas, soro para hidratação, desinfetantes, pomadas, analgésicos, vaselina. “Só temos bacias e baldes para banho”, diz Cacilda Rosa da Silva Inchiche, 31, técnica da Cruz Vermelha. Objetos de pouca serventia numa região onde as mulheres ficam horas na fila em poços distantes para conseguir um galão de água. Cacilda e Tecla são enfermeiras em saúde materno-infantil. Contam que mesmo as mães que fazem algumas consultas de pré-natal não querem fazer o teste de HIV. E acabam tendo o bebê em casa, com parteiras tradicionais. “Não temos nenhuma informação sobre o que aconteceu com elas”, diz Cacilda.

Ao lado do GATV, uma casa em ruínas foi cedida para um grupo que se apresenta como “pessoas vivendo com HIV/Aids e simpatizantes”. Seis ou sete jovens, que preparam a comida ali mesmo, no chão, ensaiam o que chamam de peça de teatro. O grupo foi batizado de Associação Aquile, que em língua "macua" quer dizer pessoas que vivem juntas. “Já somos 18 no grupo, mas não temos nada”, diz o coordenador Amisse Bernardo, 32 anos. Dizem que pretendem levar algum alimento para os mais doentes. Mas não têm enxada, nem terra, nem sementes, nem financiador.