Doente de aids é visto como pessoa que já morreu

A maior parte do dinheiro para a aids que entra em Moçambique é destinada a programas de prevenção. Outra parte menor vai para o tratamento de quem já está gravemente doente. Há correntes, inclusive médicas, que defendem a aplicação massiva dos investimentos em prevenção, já que não haveria recursos suficientes para tentar salvar os que estão infectados ou doentes. Essa contabilidade perversa, que alguns defendem como realista, é compartilhada por omissão por muitas agências financiadoras. Até agora, elas pouco ou nada investiram nas pessoas que vivem com HIV ou aids.

“Essas pessoas são vistas como se já tivessem morrido”, diz Fernando Seffner, que integra a equipe da cooperação brasileira como assessor para direitos humanos do paciente. Segundo ele, diferentemente do Brasil, onde a identidade do portador e do doente já foi estabelecida e firmada há anos, em Moçambique isso ainda não existe.

Essa experiência e a necessidade desse reconhecimento foram tratadas no encontro de capacitação que a equipe brasileira organizou na província de Nampula, norte do país. “Viver com HIV e Aids” foi o nome do seminário financiado pela Cooperação Suíça e que reuniu 40 representantes de organizações comunitárias e técnicos do governo de três províncias.

Além de Seffner, fazem parte do grupo o antropólogo Marcos Benedetti e o médico Ricardo Kuchenbeker, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, que coordena a cooperação entre Brasil e Moçambique na área de HIV-Aids. O seminário empregará textos da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia); do Grupo pela Vidda, do Rio de Janeiro; do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), de São Paulo; do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (Gapa) de Porto Alegre; e do Programa Nacional de DST/Aids.

Seffner tem a retaguarda de um mestrado que consumiu quatro anos acompanhando a trajetória de vida de pessoas vivendo com HIV em Porto Alegre. “A proposta é que mais e mais portadores do vírus e doentes de aids se transformem em ativistas, de forma que sejam vistos e tenham sua identidade reconhecida”.

A Rensida, entidade sediada em Maputo e que reúne onze associações de pessoas vivendo com HIV e aids em Moçambique, já vem recebendo assessoria da equipe brasileira. São grupos ainda incipientes, que lutam para que mais vítimas da doença se juntem e lutem por seus direitos.

O Kidlimuka, associação que em língua xangana significa despertar, começou em 1996 com dez membros. Seis deles já morreram, mas o grupo de portadores e doentes tem hoje 370 membros. Arlindo Augusto Fernandes, 45 anos, sucede dois outros dirigentes já mortos. “Quando vou à televisão e digo que tenho aids e estou vivendo, mais pessoas que estavam escondidas em suas casas vêm se juntar a nós”.

E mais ativistas passam a visitar doentes e fazer contatos com portadores do HIV, mostrando que não estão mortos, nem são culpados. “As pessoas que se fecham na doença e não recebem solidariedade nem ajuda acabam morrendo”, diz Fernandes.