No Centro Cultural Franco-Moçambicano, um belíssimo e enorme casarão na praça da Independência, que já foi um dos hotéis mais luxuosos no período da colonização, jornalistas e artistas se uniram para uma série de shows sob o slogan “A Sida (Aids) pode acabar com a Arte”. A série de seminários e apresentações culturais ocupou a mídia durante a primeira semana de novembro do ano passado. “Os jornalistas estão atentos à epidemia, mas não têm especialização e nem sempre tempo para tratar da questão”, diz Frederico Jamisse, 29 anos, jornalista do semanário Domingo e presidente da associação “Artes e Letras, Jornalistas Associados”.
Maria Elisa Chim, programadora do Centro Cultural Franco-Moçambicano, diz que os jornalistas não estão tão atentos assim. Segundo ela, há três semanas os candidatos à presidência nas eleições de dezembro cobriram de cartazes um enorme painel lembrando a Aids feito há dois anos por artistas do Núcleo de Arte. O painel era uma referência na avenida Eduardo Mondlane, uma das principais de Maputo. “Mesmo com a denúncia dos artistas, os jornais nada noticiaram”, diz Maria Elisa.
Segundo Frederico Jamisse, as campanhas ficaram repetitivas e não têm mais impacto. E, ao negarem que seus parentes estão com aids ou que morreram pela doença, as famílias contribuem para manter o estigma e retirar o tema da pauta da mídia. Mesmo a cantora Zaida Shonga, ativista da aids e que morreu em 2004, não teve a causa de sua morte revelada. “No entanto, todo mundo sabe que ela morreu de aids”, diz Jamisse.
Na seção de necrologia dos jornais, os anúncios pagos pela elite revelam apenas que a vítima morreu de “doença prolongada”. Com medo de serem confundidos, a família dos que morreram de acidente costumam destacar esse fato na nota de falecimento. Na opinião de Jamisse, só agora a sociedade civil está começando a assumir um papel na questão da aids, mas a mídia ainda se sente presa ao regime político que “foi” autoritário. “O regime está se abrindo mais depressa que as pessoas”.