De Maputo a Xai Xai, capital de Gaza, são 208 quilômetros de
pista em reforma ou construção. No final da tarde, quando é maior
o trânsito em direção a Maputo, imensos sacos de carvão
se enfileiram na beira da estrada. São vendidos ali pelo equivalente
a R$ 8 e revendidos em Maputo, em pequenas porções, pelo dobro
do valor. A grande maioria da população da capital não
tem fogão a gás ou elétrico. Cozinham com carvão.
A camioneta de cabine dupla da Amodefa segue pelo asfalto uns 50 quilômetros
depois de Xai Xai, até entrar à direita, na estrada de terra
que leva a Manjacaze. A região é uma das mais bonitas e cheias
de referências históricas para o país. A estrada passa
diante do hospital onde nasceu Joaquim Chissano, que governou o país
de 1986 a 2004. Eleito nos dois pleitos anteriores, ele deixa o cargo para
Armando Guebuza, vencedor das eleições de dezembro passado,
com 64% dos votos.
Também foi em Mancajaze que nasceu Eduardo Mondlane, um dos heróis
e dirigentes da Frelimo, Frente de Libertação de Moçambique,
assassinado na guerra de libertação contra Portugal, terminada
em 1975. Ao pé de uma das árvores ao lado da prefeitura do
município, uma placa homenageia Gungunhane, um dos primeiros líderes
na luta contra a colonização portuguesa. “Na sombra desta árvore,
o imperador Gungunhane fazia conferências e distribuía tarefas
aos seus comandantes”, lê-se na placa.
Manjacaze também foi cenário de grandes tragédias. Na
guerra civil que a Renamo –Resistência Nacional Moçambicana – travou
com a Frelimo, primeiro com o apoio da então Rodésia (atual
Zâmbia), depois da África do Sul “branca”, a cidade
foi ocupada e parcialmente destruída pelos guerrilheiros. “Aqui
só se passava escoltado pelo exército”, diz o motorista
Augusto Novela, 45 anos, treinado na antiga União Soviética
e que chegou a capitão e comandante de artilharia pela Frelimo.
Hoje a região ainda se preocupa com as minas instaladas pelo própria
Frelimo durante a guerra civil que acabou em 1992. O governo criou um Instituto
Nacional de Desminagem e já gastou 86 milhões de dólares
nesse trabalho de busca de desmontagem dos equipamentos. Milhares de pessoas
já morreram com a explosão dessas minas, 14 delas ocorridas
no ano passado. Uma pesquisa concluída em 2002 estimou que ainda existiam
792 aldeias minadas, pondo em risco a vida de mais de um milhão de
pessoas.