A Associação Moçambicana para o Desenvolvimento da Família (Amodefa) tem uma parceria com a Associação Reencontro uma ONG com sede na região norte do país e que nasceu para atender aos órfãos da guerra. “Depois passamos a cuidar dos órfãos da Sida”, diz Dorotéa Balani, vice-presidente da entidade, que hoje atende a 1.971 órfãos. A grande maioria perdeu a mãe doente e o pai foi embora.
Alguns passam parte do dia ali, em oficinas de costura. Os outros são encaminhados para a escola ou recebem cuidados de saúde, quando precisam. Não há abrigos para crianças. Aquelas que ficaram sem os pais, passam a morar com avós, tios ou algum vizinho. Mais de 50 delas vivem sozinhas em seus barracos, cuidando de suas próprias coisas, como se fossem adultos.
Na parede da sala apertada da Associação Reencontro, um cartaz mostra um adolescente cercado de crianças. Uma frase diz que a aids o obrigou a tornar-se pai quando ainda é um menino. A casa dessas crianças é a última a ser visitada naquele dia. São alguns quilômetros de estradas e caminhos, ao longo dos quais os terrenos são cercados por espinheiros e os carros atolam na areia.
A casa dos meninos é um barracão de zinco ao lado de uma palhoça escura, onde eles cuidam de galinhas para um vizinho. São nove filhos das quatro mulheres que o pai teve. Duas das mães já morreram, as outras duas foram embora. O pai morreu três anos atrás.
Foi quando as crianças ficaram sozinhas. Camal Fernando Tila, o mais velho, hoje com 16 anos, distribui as funções entre os irmãos: buscar água, procurar lenha, fazer a comida, lavar as panelas, cuidar das galinhas. Dois se chamam António. Os outros são Latife, Cassamo, Agira, Charefo, Arlindo. E o mais novo é Alberto, de quatro anos. Anefa morreu no ano passado, aos oito anos.
As enfermeiras examinam cada criança. Apenas uma está com prisão de ventre. O mais velho fica com os comprimidos e as enfermeiras retornam para a camioneta onde a motorista Sandra Tamefa as espera, se balançando ao som de raps e pagodes.