Os flamboyants e os jacarandás de flores arroxeadas que lá também são chamados de acácias estão floridos nesta época ano nos bairros centrais e nobres de Maputo. A cidade, hoje com 1,6 milhão de moradores, antes Lourenço Marques, capital de Moçambique desde o século 19, é conhecida como a “capital das acácias”. Mas essa árvore de flores bonitas existe somente nas áreas nobres. Na periferia, só há mangueiras, cajueiros e espinheiros.
Nas ruas, no que se pode chamar de “circuito branco”, por onde também circula a elite negra, são comuns as camionetes de cabine dupla e carros novos importados o país não possui montadoras. Moradores da periferia se movimentam nos milhares de “chapa 100”, como são chamados as lotações em vans e microônibus todos em estado precário, que cobram o equivalente a 50 centavos de real pela passagem. Pendurados nas portas, os cobradores vão gritando o destino a todo tempo.
Quem vem da periferia senta-se nas calçadas para vender algumas poucas frutas e verduras. Ou seguem para o trabalho na região mais rica. Guias de turismo apresentam a cidade como a mais européia das capitais africanas e destacam a integração cordial entre negros, brancos, indianos e imigrantes orientais. Num mesmo bairro, podem-se encontrar igrejas católicas, sinagogas, mesquitas e até mesmo templos animistas. Também não faltam restaurantes de diferentes origens.
A diferença entre negros, a elite negra e os brancos, no entanto, salta aos olhos. Os dois últimos grupos podem pagar vários empregados domésticos e pelo menos dois guardas para vigiar o lado de fora das casas 24 horas por dia. Como se não bastasse, contratam empresas de segurança que circulam em carros impecáveis e fixam nos portões das residências avisos muito claros: “Atenção: resposta armada”.
Bairros nobres como Samerschild abrigam embaixadas, casas de diplomatas e de funcionários de organizações internacionais que se instalaram ali para ajudar o país. Numa única quadra, próxima à avenida Eduardo Mondlane, estão instituições como a Médicos sem Fronteiras, a Family Health Internatiotional e a Visão Mundial.
Próximo à avenida Julius Nyerere, no mesmo Samerschild, estão a sede do Conselho Nacional de Combate a Sida (Aids), principal órgão oficial de combate à epidemia, e o escritório local da OnuSida, programa da ONU para a Aids.
Do outro lado da avenida, em cuja calçada é proibido caminhar, está o palácio presidencial. A construção ocupa espaço maior que duas quadras e tem vista para o mar. Na calçada em frente, ocupando quase meia quadra, está a mansão onde vive o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, e sua mulher Graça Machel, viúva de Samora Machel primeiro líder do país depois da independência, em 1975, e que morreu há 18 anos.
A mansão do casal Mandela foi construída no jardim onde Samora Machel costumava correr e sentar para as leituras diárias. Ironicamente, o casarão ocupa o jardim onde o falecido marido de Graça Machel fazia seus exercícios. Como o luxo da mansão de Mandela incomoda pela miséria do país, o mito sul-africano pretende ceder seus espaços para políticos internacionais em visita ao país.
No mesmo bairro está a catedral de Santo Antonio da Polana, construída em 1962 e restaurada 30 anos depois. A igreja, cujas missas aos domingos é freqüentada pela elite católica, lembra uma flor de lírio de ponta cabeça, com os folículos, no alto, iluminados por vitrais coloridos. É uma das obras mais bonitas do bairro.