Bicicletas na areia

A periferia oeste de Manjacaze, onde a enfermeira faz visitas, é um emaranhado de caminhos arenosos, em meio a milhares de cajueiros e pequenas plantações de amendoim e abacaxi. Poderia ser um oásis no meio de tanta terra árida, mas o mapa das ativistas mostra uma “enfermaria” de doentes abandonados. São 43 ativistas em todo o município, 18 deles capacitados pelo projeto Ntwanano, o programa de cooperação entre Brasil e Moçambique.


Na agenda de visitas, está Marta João Tovela, 23 anos. Já perdeu o pai e a mãe. Vive com um irmão de 12 anos. Marta está na sombra das árvores “limpando” a cacana, uma verdura que se encontra ali em qualquer parte e que, cozida com água ou legumes, daria uma sopa nutritiva, como acreditam ali. Como não consegue mais andar e apanhar a cacana, ela “limpa” a “verdura” para uma vizinha.


Marta se queixa de dores pelo corpo todo. A enfermeira Natalia Magaia, 38, da Amodefa, diz que ela precisa de medicamentos que só o hospital de Xai Xai pode fornecer. A condução até lá custa o equivalente a 10 reais. Não há ali quem possa pagar por isso. Natalia desabafa. “De que adianta treinar a gente se não temos nada para oferecer? Nem luva, nem pomada, nem remédio, nem comida, nem transporte, nem nada”.


Na sede da Amodefa, em Xai Xai, estão 12 bicicletas ainda embaladas em plásticos. “Não servem para nada, porque ninguém anda com elas nesses caminhos de areia”, diz André Felipe Tavela, 40 anos, coordenador de programas da Tchavelelo. André é um dos fundadores da associação. Soube que estava com aids há três anos. “Já aprontei muitas, mas estava bem com a minha segunda esposa e de repente veio esse filho que tem nove meses. Rezo para que ele não tenha o HIV”.


André conhece quase todos os doentes assistidos pela Tchavelelo. “É um milagre que tantos estejam vivos. Os estrangeiros que mandam ajuda não sabem o que está acontecendo com a gente. Meio litro de suco, que costumam oferecer, custa o mesmo que três quilos de arroz, que pode garantir a vida de uma família por duas semanas”. Na camiseta de André, está escrito: “Até a morte, tudo é vida. Mesmo com a Sida”.


Na caçamba da camionete, as ativistas seguem cantando, repetindo em changana um refrão que pode ser traduzido como “ajudar, confortar, é a nossa missão, fazemos isso com o coração, não importa a chuva, não importa o sol”. As ativistas vestem camisetas de cor azul com as inscrições da Amodefa e do projeto Ntwanano nas costas. Na manga esquerda, lê-se Fundação Ford. Vistas cantando, sentadas na carroçaria da camionete, lembram times de futebol que dividem o uniforme entre vários patrocinadores.