A ameaça a mulheres e caminhoneiros em Nampula

O “corredor central”, como é chamada a rodovia que corta Moçambique e que liga vários países vizinhos ao porto de Nacala, é um dos principais caminhos de entrada da aids no país. Não é exagero dizer que essa estrada poeirenta é uma das causas do rápido aumento da epidemia no norte de Moçambique. Várias organizações de cooperação investem na região, em projetos comunitários nem sempre coordenados, que são interrompidos quando furam os pneus das bicicletas ou quando quebram os equipamentos das rádios comunitárias. É nessa área, na província de Nampula, que a cooperação brasileira está abrindo uma nova frente de trabalho, antes limitado à capital Maputo.
Pela janela de vidro trincado da “Rádio Container” dá para ver as crianças assistindo aula e correndo pelos barracões sem paredes e cobertos de palha. A estrutura de vidro e metal do estúdio destoa no cenário de pó das palhoças que avançam bairro adentro. Ali funciona a Rádio e TV Comunitária de Namialo, um vilarejo do distrito de Monapo. O estúdio retransmite as emissões da TV Moçambique e produz uma hora de programa local. A rádio gera 13 horas diárias de programação local, intercalando horários em português e em "macua" (Emakua), a língua falada na região.
Existem 42 rádios comunitárias no país, a maioria financiada pelo Instituto de Comunicação Social, um organismo do governo. A estação de Namialo é uma dessas. A rádio cobre um raio de pelo menos 70 quilômetros e é ouvida ao longo de um dos trechos mais movimentados do “corredor central”: aquele que leva ao porto de Nacala, 107 quilômetros à frente. Por ali passam caminhoneiros da própria província de Nampula, da região do lago Niassa, de outros pontos de Moçambique, e de países vizinhos ­ Zâmbia, Malavi, Tanzânia, Zimbábue.
Ao percorrer uma das regiões mais afetadas pela aids em Moçambique, os caminhoneiros formam um dos grupos que mais preocupam as autoridades sanitárias do país. Muito porque eles atraem as mulheres ­ prostitutas ou não ­ em cada vilarejo que param. Entre os ouvintes da rádio de Namialo, estão caminhoneiros que muitas vezes nem acreditam na existência da aids e mulheres para as quais o equivalente a R$ 10 pode significar a sobrevivência dos filhos.
Por isso mesmo, a maior parte dos programas de saúde da rádio Namialo alerta sempre para os riscos de infecção pelo HIV e a necessidade de se usar preservativo. É um desafio enorme ­ talvez impossível ­ para um grupo de jovens técnicos e jornalistas sem nenhum treinamento ou assessoria.