Numa das salas da Monaso, no bairro Polana, região central da capital de Moçambique, o antropólogo brasileiro Marcos Benedetti vai rabiscando junto com técnicos quais são os objetivos de combate à aids no país para os próximos anos. Primeiro, ampliar a atenção aos doentes, conquistando a confiança e treinando mais ativistas. Enquanto o coquetel não chega, o importante é cuidar do paciente para que ele tenha melhor qualidade de vida e maior sobrevida. O outro objetivo é promover a visibilidade, fazer com que mais gente com HIV/aids tenha coragem de se mostrar, contribuindo para diminuir o preconceito e promover a defesa dos direitos do doente.
Monaso é a Rede Moçambicana de Organizações contra a Sida, que reúne cerca de 300 instituições no país. Benedetti é um dos brasileiros que fazem parte do projeto Ntwanano, nome dado à cooperação entre o Programa Nacional de DST/Aids do Brasil e o governo moçambicano. Ntwanano, na língua changana, um dos vários dialetos locais, quer dizer aliança e entendimento. O acordo foi assinado há dois anos, entre os Ministérios da Saúde do Brasil e de Moçambique, e tem a participação de organizações não governamentais dos dois países.
O projeto começou ainda em 2000, quando se iniciou um pequeno intercâmbio de profissionais e ONGs brasileiras e moçambicanas. Há três anos, o governo do Brasil propôs uma cooperação técnica para países africanos de língua portuguesa. Na época, Moçambique mandou uma comitiva de 15 médicos para participar de um treinamento em São Paulo.
Em 2002, na 14ª Conferência Mundial de Aids, realizada em Barcelona, na Espanha, o Brasil anunciou a distribuição de anti-retrovirais para 100 pacientes de pelo menos dez países que se candidatassem e manifestassem interesse. Os tratamentos faziam parte do Programa de Cooperação Internacional (PCI), lançado na ocasião. Moçambique tinha a vantagem de já ter iniciado uma troca de experiências com o Brasil e de já ter convidado e recebido profissionais brasileiros.
Foi nesse cenário que nasceu o projeto Ntwanano, que em novembro passado recebeu a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além dos 100 tratamentos, a iniciativa envolve a capacitação de profissionais da saúde, a participação da sociedade civil e as questões dos direitos humanos.
Nos últimos dois anos, o projeto que tem apoio da Fundação Ford custou 300 mil dólares. Mesmo que o apoio da instituição norte-americana não continue, as áreas de atuação devem ser ampliadas. Hoje, os trabalhos são feitos na capital Maputo, em Manjacaze, na província de Gaza, e já começa a se estender para o distrito de Nampula, no norte do país.