720 órfãos

Adélia, Flávia, Tomás e Celso têm entre 2 e 8 anos e são filhos de Adélia Américo Bila. Cada uma das crianças nasceu de pai diferente. Pelo menos duas delas já fizeram o teste e estão com aids. A mãe, infectada, espera um filho de um quinto pai, que também desapareceu. As crianças estão sentadas ou caminham tropeçando em volta da palhota escura, que à noite mal comporta todas elas agrupadas. Algumas mostram sinais de retardo mental ou estão com os olhos inchados e feridas pelo pescoço.


A única comida ali ­ quando há ­ é mandioca ralada misturada com água. A mãe, de 32 anos, olha os visitantes sem demonstrar reação alguma. Todos os homens que foram com ela para a cama não perguntaram se ela tinha aids. Ela não sabe dizer se usaram preservativos ou não.


A caravana da camioneta com as ativistas cantando vai se encerrar numa casa onde vivem cinco filhos que perderam o pai e a mãe. Só o motorista e as ativistas conhecem aquele emaranhado de caminhos, onde a pouca mandioca e o milho secam na areia, sob o sol de 38 graus.


André diz que os doentes são em número maior que o conhecido pela Tchavelelo. “Muitos morrem em casa, sem que a família revele nada a ninguém”. Só vêm à tona quando as crianças ficam sozinhas. Hoje a associação cuida de 243 doentes, mas os órfãos já são 720, contando apenas os conhecidos e visitados.


Na casa do bairro Cimento, assim chamado porque já se encontram na área casas de alvenaria, moram cinco filhos de um pai que veio doente da África do Sul e morreu dois anos atrás, pouco antes da mulher. Os dois filhos mais velhos também morreram de aids infectados em relações sexuais.


Francisco, o sobrevivente mais velho, de 19 anos, assumiu a família, mas logo se casou com Emília, de 17, e tiveram um filho. Francisco virou pai de todos. Emília cuida de todos. E a família de cinco órfãos vivos já se transformou em sete.


Na pequena roça, a terra não dá nada. Cada criança sai vendendo alguma coisa, meia dúzia de tomates ou dois pacotes de bolacha. Compram por 1 e vendem por 1,5 metical. Na conta final, conseguem o que comer. Não adianta perguntar sobre a falta ou a saudade dos pais. Eles reagem como se não estivessem entendendo.


No caminho de volta para Maputo o motorista Augusto toca mais uma vez a fita cassete da cantora brasileira Sula Miranda ­ “Vem pra Mim”. Augusto diz que gosta de música romântica e se queixa de não encontrar mais em Maputo gravações de outro brasileiro, Lindomar Castilho. Trinta quilômetros antes da capital, a estrada passa por Matalana, onde nasceu Malangatana (Valente Ngwenya), tido como o artista plástico maior de toda a África.


Para fugir das centenas de “chapas 100”, as lotações que transformam o caos do trânsito numa confusão de buzinas e gritos, o motorista desvia pelo bairro do Eleleu. Do lado direito, está a maior “lixeira” de Maputo. Um lixão onde centenas de pessoas vasculham restos e moram ali mesmo, em barracas montadas ao lado dos urubus e próximas da fumaça e do caldo preto que escorre da caçamba dos caminhões.