72 mil curandeiros

A julgar pelos números, “doutor” Soba tem razão. Os 20 milhões de habitantes de Moçambique contam com 500 médicos contra 72 mil curandeiros. A proporção é de um médico para 40 mil moçambicanos, enquanto Organização Mundial da Saúde recomenda um médico para cada mil habitantes. Já os curandeiros, ou médicos tradicionais, são cerca de 230 para cada mil moçambicanos.


A poderosa FDC, Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, dirigida por Graça Machel, viúva de Samora Machel e atual mulher de Nelson Mandela, acha que os médicos tradicionais são peças-chave no combate à epidemia, mas que ainda não receberam a devida atenção do governo. A FDC trabalha com 15 ONGs e três instituições estrangeiras que atuam ou financiam outras associações pelo país.


Eduarda Cipriano, diretora da fundação, diz que a FDC já fez uma tentativa de trabalhar com os curandeiros, mas errou ao buscar um contato direto com eles. “Não falamos a mesma linguagem”, reconhece. No momento, a fundação está “mapeando” os curandeiros que têm formação superior e que podem entender o que é a aids e como ela se transmite. Esses médicos tradicionais seriam treinados para levar conhecimentos básicos para seus colegas, numa linguagem que eles possam entender.


Os curandeiros estão representados pela Associação Metramo, que congrega os chamados médicos tradicionais de Moçambique. “As ONGs e as instituições que chegam de fora não se importam em conhecer seus costumes e tradições. Agem como se a África inteira fosse uma massa negra”, diz Eduarda.