Apresentação

Em outubro de 2001, o “Comitê Assessor para Co-Infecção HIV/Tuberculose da Coordenação Nacional de DST e Aids” atualizou as recomendações do Ministério da Saúde para o tratamento e prevenção dessa importante interação infec-ciosa em indivíduos adultos e adolescentes. Novas informações e condutas foram incorporadas considerando os recentes avanços ocorridos no uso da terapia anti-retroviral, particularmente os novos conhecimentos farmacológicos envolvendo as drogas anti-retrovirais e antituberculose. As recomendações sugeridas por esse Comitê continuarão a ser revisadas periodicamente, à medida que novos conhecimentos da imunopatogênese e do tratamento sobre a co-infecção HIV/tuberculose forem sendo gerados em estudos clínicos e epidemiológicos. Espera-mos que essas diretrizes continuem sendo instrumento importante para o atendi-mento com qualidade do paciente portador da infecção pelo HIV na rede pública de saúde do País.

PAULO R. TEIXEIRA
Coordenador
Coordenação Nacional de DST e Aids

Considerações Gerais sobre o Tratamento da Co-Infecção HIV/Tuberculose

Com o uso disseminado da terapia anti-retroviral combinada potente, após o advento dos Inibidores da Protease (IP) e Inibidores da Transcriptase Reversa Não-Nucleosídeos (ITRNN), a morbimortalidade relacionada ao HIV sofreu profundas transformações, com mudança radical na ocorrência e no prognóstico das complicações oportunistas mais comuns. Estudos recentes mostram que o risco de adoecimento por tuberculose em indivíduos HIV+ reduziu-se em aproximadamente 10 vezes; e que a taxa de ocor-rência de casos de tuberculose em pacientes atendidos pelos serviços especializados em DST/aids no Brasil apresentou uma redução de até 75%, quando comparada aos índices encontrados antes do advento da terapia anti-retroviral combinada. A Rifampicina (RMP) é considerada uma das principais drogas no tratamento da tuberculose. Esquemas que incluem a sua utilização apresentam taxa de sucesso terapêutico da ordem de 95%, quando adequadamente utilizados. Contudo, a utilização concomitante da RMP com a maioria dos IP e/ou ITRNN promove importante interação farmacológica no sistema microssomal hepático e da parede intestinal, podendo provocar redução signifi cativa dos níveis séricos desses anti-retrovirais e, conseqüentemente, aumentar o risco de desenvolvimento de resis-tência do HIV ao esquema anti-retroviral em uso. O utilização de esquemas alternativos para o tratamento da tuberculose sem RMP, apesar de efi caz do ponto de vista bacteriológico, tem se mostrado com efetividade terapêutica global redu-zida pela maior complexidade do esquema, maior difi culdade de adesão ao uso de medicação injetável (estreptomicina) e tempo mais prolongado de tratamento. Nessas situações, pode haver prejuízo para o paciente co-infectado, tanto pela não utilização de IP e/ou ITRNN no esquema anti-retroviral, como pela não inclu-são da RMP no esquema antituberculose.

Entretanto, estudos farmacocinéticos sugerem que a RMP pode ser utilizada con-comitantemente com alguns anti-retrovirais em pacientes HIV+ com tuberculose, desde que estes pacientes sejam tratados com esquemas que contenham efavirenz (EFZ) ou a associação saquinavir + ritonavir (SQV/RTV), sem necessidade de ajuste nas dosagens habituais. Até o presente momento, embora alguns estudos de menor porte recomendem aumento da dose de EFZ para 800mg/dia, a literatura carece de análises que avaliem a toxicidade ou a efi cácia clínica do EFZ nesta dosagem, em associação com outras drogas anti-retrovirais. Portanto, não está autorizado o seu uso de rotina nessa posologia. Alguns estudos recentes sugerem, em algumas situa-ções, que o uso do Ritonavir em sua posologia convencional (1200mg/dia) e como único IP do esquema anti-retroviral pode ser considerado como opção de utiliza-ção concomitante com a RMP, embora investigações farmacocinéticas conclusivas e avaliação do risco de hepatotoxicidade com essa associação ainda não estejam disponíveis. Ademais, recomenda-se que o uso dessas associações em pacientes portadores da co-infecção HIV/tuberculose seja feito de forma criteriosa, com a orientação e/ou supervisão de profi ssional médico com experiência no trata-mento de ambas as doenças e com cuidadoso acompanhamento clínico-laborato-rial. Deve-se ter especial atenção para a possibilidade de falha no tratamento da tuberculose, falha no tratamento anti-retroviral, reações paradoxais da tuberculose e efeitos colaterais e/ou tóxicos, específi cos ou sinérgicos, causados pela associação das drogas anti-retrovirais e antituberculose utilizadas nessa situação.

Apesar de ser considerada uma doença oportunista, a tuberculose de ocorrên-cia típica, com padrão clínico-radiológico de acometimento apical, não caracte-riza necessariamente comprometimento signifi cativo da imunidade ou falha da
terapia anti-retroviral porventura instituída. O adoecimento por tuberculose, fre-qüentemente, promove o fenômeno de transativação heteróloga do HIV, com ele-vação da carga viral em pacientes HIV+ e diminuição da contagem de células
T-CD4+, ambas transitórias e dependentes da atividade da doença. Isso difi culta a interpretação desses parâmetros para início e/ou seleção de esquema anti-retro-viral, na vigência de tuberculose ativa sem tratamento específi co. Estudos recentes sugerem, ainda, que o tratamento isolado da tuberculose em pacientes co-infec-tados pelo HIV e que não estão em uso de ARV, reduz, por si só, a carga viral plasmática. Assim, considerando-se que a terapia anti-retroviral não é uma emergência médica, sugere-se aguardar a estabilização do quadro clínico. Idealmente, procede-se a uma avaliação da contagem da células T-CD4+ e quantifi cação da carga viral após 30 a 60 dias do início da terapia antituberculosa, utilizando-se tais parâmetros para indicar a terapia anti-retroviral.

Para a escolha do esquema anti-retroviral, deve-se também avaliar o risco de intolerância, toxicidade e capacidade de adesão do paciente ao tratamento, considerando a possibilidade de utilização de esquemas menos complexos; ou mesmo a postergação do seu início, naqueles pacientes com quadro de imunode-ficiência menos grave. Entretanto, em pacientes com sinais (principalmente clínicos) de imunodefi ciência mais grave, deve-se considerar o uso mais precoce da
terapia anti-retroviral, devido ao risco elevado de morte. Por outro lado, pacientes com contagem de células T-CD4+ > 350/mm3 não devem iniciar terapia anti-retroviral na vigência de doença tuberculosa. Entretanto, sugere-se, para melhor
defi nição da conduta, uma reavaliação clínico-imunológica após 30-60 dias do início do tratamento da tuberculose.

Pacientes em uso de esquema anti-retroviral incompatível com RMP poderão ter esse esquema modifi cado para possibilitar o tratamento da tuberculose e da infecção pelo HIV com esquemas antituberculose e anti-retroviral potentes, não caracterizando esta mudança uma falha terapêutica do esquema ARV anterior-mente em uso, e sim uma adequação deste último tratamento antituberculoso. Essa substituição do esquema, após o término do tratamento para tuberculose, não invalida a reintrodução ou o uso futuro do esquema anti-retroviral previa-mente utilizado. Pacientes portadores de tuberculose com indicação de uso do esquema I (R+H+Z por seis meses), mas que não possam utilizar algum dos esquemas anti-retrovirais compatíveis com RMP, deverão ser tratados para tuber-culose durante 12 meses com esquema alternativo de tratamento da tuberculose para pacientes com intolerância ou contra-indicação para uso da RMP, recomen-dado pela Coordenação Nacional de Pneumologia Sanitária/Ministério da Saúde; e iniciar ou substituir o tratamento anti-retroviral pelo esquema considerado mais adequado do ponto de vista imunológico e virológico.

O uso concomitante de abacavir (ABC) e outros Inibidores da Transcriptase Reversa Nucleosídeos (ITRN) com RMP não está contra-indicado do ponto de vista farmacológico, pois não existe nenhuma interação entre as drogas desse grupo far-macológico com a RMP, não necessitando, portanto, de nenhum ajuste posológico.

É importante considerar que a adesão adequada a ambos esquemas, antituber-culose e anti-retroviral, tomados de forma concomitante, é um grande desafio para o paciente, devido à elevada quantidade de comprimidos/cápsulas a serem
ingeridas ao dia e à ocorrência de efeitos colaterais, particularmente nas primei-ras semanas de tratamento. Portanto, deve-se considerar, sempre que possível, o adiamento do início do tratamento anti-retroviral em pacientes com co-infecção
HIV/tuberculose, particularmente naqueles que apresentam quadros de imuno-deficiência menos graves do ponto de vista clínico-laboratorial. A indicação de início de terapia anti-retroviral em pacientes com co-infecção HIV/tuberculose
deve seguir os mesmos parâmetros clínicos e imunovirológicos estabelecidos para pacientes HIV+ sem tuberculose em atividade, recentemente atualizados no documento “Recomendações para Terapia Anti-retroviral em Adultos e Adoles-centes - 2001”, do Ministério da Saúde (ver Quadro I).

  1. Dois meses iniciais com R+H+Z, seguidos de quatro meses com R+H (2RHZ/4RH).
  2. O adoecimento por tuberculose, freqüentemente, promove a elevação da carga viral e a diminuição da contagem de células T-CD4+ em pacientes HIV+. Sugere-se iniciar a terapia antituberculose, aguardar a estabilização clínica do quadro e depois utilizar esses exames na avaliação da indicação de terapia anti-retroviral. Para a escolha da opção de tratamento deve-se também avaliar o risco de toxicidade e a capacidade de adesão do paciente para ambos tratamen-tos, considerando a possibilidade de utilizar esquemas anti-retrovirais menos complexos ou mesmo a postergação do início do tratamento anti-retroviral naqueles pacientes com quadros de imunodefi ciência menos graves.
  3. Nessa situação, alguns autores consideram a possibilidade de se iniciar trata-mento anti-retroviral, pois há risco de progressão mais rápida da imunode-ficiência causada pelo HIV, devendo ser avaliados os parâmetros clínicos e
    laboratoriais específi cos (contagem de células T-CD4+ e carga viral) com maior freqüência. Quanto mais próxima de 200 células/mm3 for a contagem de células T-CD4+ e/ou maior a carga viral (particularmente se > 100.000 cópias/ml), mais forte será a indicação para início da terapia anti-retroviral. É importante considerar a motivação do paciente e a probabilidade de adesão, antes de se iniciar o tratamento.
  4. Pacientes com tuberculose e indicação de uso do esquema I (E-1), mas que não possam utilizar algum dos esquemas anti-retrovirais compatíveis com Rifampi-cina, deverão ser tratados para tuberculose durante 12 meses com esquema para pacientes com intolerância ou contra-indicação para uso de Rifampicina recomendado pelo Ministério da Saúde (dois meses iniciais com H+Z+S+E, seguidos de 10 meses com H+E [2HEZS/10HE]).
  5. A experiência clínica com o uso do Abacavir em indivíduos HIV+ com tubercu-lose é limitada. Para pacientes sintomáticos ou assintomáticos com imunode-ficiência mais grave (contagem de células T-CD4+ < 200 células/mm3) e/ou carga viral elevada (> 100.000 cópias/ml), alguns especialistas recomendam utilizar preferencialmente esquemas anti-retrovirais mais potentes, contendo ITRNN ou IP. O uso concomitante de Abacavir e outros Inibidores da Transcrip-tase Reversa Nucleosídeos (ITRN) com RMP não está contra-indicado, pois não existe nenhuma interação farmacológica com os medicamentos antituberculose descrita até o momento.
  6. Nessas situações, não há dados que permitam escolher entre esquemas com ITRNN ou IP. Entretanto, o uso de Ritonavir associado a drogas antituberculose utilizadas no esquema I (E-1) apresenta risco aumentado de hepatotoxicidade. Sugere-se monitorar cuidadosamente as transaminases e outras provas de função hepática do paciente durante o tratamento; e não iniciar o uso de esquema com esse anti-retroviral associado ao esquema I (E-1), caso os níveis basais dessas enzimas hepáticas estejam três vezes acima dos valores de referên-cia.
  7. Dois meses iniciais com R+H+Z, seguidos de sete meses com R+H (2RHZ/ 7RH). Observar que doses mais elevadas de Rifampicina e isoniazida são reco-mendadas nessa situação. O Efavirenz é contra-indicado durante a gestação. Não há dados conclusivos sobre a segurança do Abacavir na gravidez.
  8. Dois meses iniciais com R+H+Z+ E, seguidos de quatro meses com R+H+E (2RHZE/4RHE).
  9. Recomenda-se monitorar rigorosamente a adesão (tratamento supervisionado) e coletar material para teste de sensibilidade aos medicamentos antitubercu-lose.
  10. Três meses iniciais com S+Et+E+Z, seguidos de nove meses com Et+E (3SEtEZ/9EtE).

  1. Pacientes com meningoencefalite tuberculosa deverão utilizar doses mais eleva-das de Rifampicina (20mg/kg, com dose máxima de 600mg/dia) e isoniazida (20mg/kg, com dose máxima de 400mg/dia), mesmo com peso corporal abaixo de 45kg.
  2. Devido ao uso freqüente e concomitante de outras drogas potencialmente hepatotóxicas (ex: sulfamídicos, imidazólicos, inibidores de protease etc.), a dose de pirazinamida poderá ser reduzida em pacientes HIV+ até o limite mínimo de 25mg/kg/dia, respeitando-se os limites máximos de dose diária esta-belecidos conforme o peso corporal do paciente.

  1. O teste tuberculínico (PPD) deve ser realizado sempre na avaliação inicial do paciente HIV+, independentemente do seu estado clínico ou laboratorial (con-tagem de células T-CD4+ e carga viral), devendo ser repetido anualmente nos
    indivíduos não-reatores. Nos pacientes não reatores e em uso de terapia anti-retroviral, recomenda-se fazer o teste a cada seis meses no primeiro ano de tra-tamento, devido à possibilidade de restauração da resposta tuberculínica.
  2. A quimioprofi laxia com Isoniazida (INH) reduz o risco de adoecimento a partir da reativação endógena do bacilo, mas não protege contra exposição exógena após a sua suspensão. Portanto, em situações de possível reexposição ao bacilo da tuberculose, o paciente deverá ser reavaliado quanto à necessidade de pro-longamento da quimioprofi laxia (caso esteja em uso de INH) ou de instauração de nova quimioprofi laxia (caso esta já tenha sido suspensa).
  3. Para pacientes com imunodefi ciência moderada/grave e reação ao PPD >10mm, recomenda-se investigar cuidadosamente tuberculose ativa (pulmonar ou extra-pulmonar), antes de se iniciar quimioprofi laxia.
  4. Indivíduos HIV+ contatos de pacientes bacilíferos com tuberculose INH-resis-tente documentada e que não estão em uso de IP ou ITRNN incompatíveis com uso de RMP, poderão fazer uso de quimioprofi laxia com esquema alternativo de Rifampicina (600 mg/dia) + Pirazinamida (2000 mg/dia) por dois meses, prefe-rencialmente sob a supervisão de um especialista.

Abreviaturas Utilizadas

  • MEDICAMENTOS ANTITUBERCULOSE
  • RMP (R) = Rifampicina
  • INH (H) = Isoniazida
  • PZA (Z) = Pirazinamida
  • EMB (E) = Etambutol
  • SM (S) = Estreptomicina
  • ETH (Et) = Etionamida
  • MEDICAMENTOS ANTI-RETROVIRAIS
  • ZDV = Zidovudina
  • 3TC = Lamivudina
  • ABC = Abacavir
  • EFZ = Efavirenz
  • RTV = Ritonavir
  • SQV = Saquinavir
  • ITRN = Inibidor da Transcriptase Reversa Análogo de Nucleosídeo
  • ITRNN = Inibidor da Transcriptase Reversa Não-Análogo de Nucleosídeo
  • IP = Inibidores da Protease
  • VO = Via Oral

Bibliografi a Consultada

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Este documento foi elaborado com a participação de:

Comitê Assessor para Co-Infecção HIV-Tuberculose

Afrânio Lineu Kritski
Universidade Federal do Rio de Janeiro/RJ
Antonio Carlos de Castro Toledo Júnior
Hospital Eduardo de Menezes/FHEMIG/MG
Antônio Ruffi no Netto
Universidade Federal de Ribeirão Preto/SP
Beatriz Grinzstejn
Hospital Evandro Chagas/Fiocruz/RJ
Celso Ferreira Ramos Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro/RJ
David Jamil Hadad
Instituto de Infectologia Emílio Ribas/SP e CRT DST/AIDS/SES/SP
Laede Rodrigues dos Santos
Divisão de Tuberculose do Centro de Vigilância Epidemiológica/SES/SP
Leda Fátima Jamal
Centro de Referência e Treinamento de DST/AIDS/SES/SP
Miguel Auib Hijjar
Centro de Referência Prof. Hélio Fraga/Fiocruz/RJ
Rosana Del Bianco
Instituto de Infectologia Emílio Ribas/SP e CRT DST/AIDS/SES/SP
Solange Cavalcante
Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e Fiocruz/RJ
Valdiléa Gonçalves Veloso dos Santos
Secretaria de Estado da Saúde do Rio de Janeiro e Fiocruz/RJ

Coordenação Nacional de DST e Aids

Paulo R. Teixeira
Carlos Mello de Capitani
Marco Antônio de Ávila Vitória
Guida Silva

EDITORA MS/Coordenação-Geral de Documentação e Informação/SAA/SE
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