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Artigo 5 ENFERMIDADES DEGENERATIVAS ENTRE OS TERENA DE MATO GROSSO DO SUL UMA ABORDAGEM DE ASPECTOS LIGADOS AO DIABETES TIPO II E FATORES CORRELACIONADOS José
Ivan Aguiar, Juberty A Souza, Alfredo Sganzerla, Olívio Mangolin,
Tamara Maia , Karen Lopes, Sergio
INTRODUÇÃO Os Terenas são índios do grupo Aruak que viveram no Chaco paraguaio as margens de rio do Paraguai. Eles eram original mente povos agricultores de hábitos sedentários e no Chaco foram dominados por povos guerreiros os Mabyá (Oberg,1985). Carvalho (1979) sugerem que a relação com os Mabyá não era dominação, mas de aliados com alguma subordinação. Na metade do século XIX eles migraram para o Estado do Mato Grosso do Sul, e as razões não estão são bem entendidas. Durante este período viveram em pequenos grupos e dispersos. Após 1916 passaram a viver em aldeias novamente , sobretudo em razão do trabalho de Rondon. No curso destes três séculos os Terenas sofreram grandes mudanças e tiveram afetada sua cultura, economia, organização social, fé e práticas religiosas. Telarelli Jr.(1984) ao visitar cinco aldeias Terena, observou que as principais causas de mortalidade eram: Diarréia, Influenza, Infeção Respiratória Aguda, Tuberculose e Causas Externas. Na aldeia Bananal relatou alguns casos de câncer e hipertensão arterial. Um dos aspectos importantes deste registro é que ele acreditava que na região de Aquidauana, o aumento de doenças degenerativas era um resultado esperado como decorrência de modificações no estilo de vida. Um relatório da DIA(Diagnóstico Indígena e Ambiental), ONG conveniada com a FUNAI (Fundação Nacional dos Índios), demonstrou que entre janeiro de 1993 e outubro 1994 ocorreram 2591 mortes entre os índios brasileiros e que as cinco principais causas foram: Sem Cuidados Médicos, Causas Externas, Infeção Respiratória Aguda , Doenças Diarreicas Agudas e Doenças Crônicas Degenerativas. A taxa de mortalidade entre crianças menores de 5 anos idade foi de 45,8% e a expectativa da vida de 45,6 anos. Nos Estados de Roraima(RR) e Mato Grosso do Sul(MS) os valores citados são menores, 37.0 e 37.7 anos, respectivamente (Moura 1997). Este relatório tem o mérito de tentar organizar e levantar questões ligadas à morbidade e mortalidade e é natural que faltem alguns dados. Um exemplo importante é o fato de Mato Grosso do Sul apresentar uma das menores expectativas de vida e não existirem os registros das taxas de mortalidade entre índios Terenas. Subnotificação, ausência de registros e problemas com a confirmação do diagnostico certamente contribuíram para dificultar a montagem do mesmo . O Terenas tem uma longa história de contato com a sociedade brasileira, morando em áreas algumas vezes próximas às cidades, muito provavelmente devido a este fato, o grupo adotou muitos dos usos, costumes e práticas da sociedade nacional. A partir de 1920 um processo de migração teve início com muitas famílias deixando as aldeias para morar nas cidades e ou trabalhar em fazendas. Nos anos trinta houve um crescimento desta migração, Cardoso de Oliveira (1968) considera que os conflitos religiosos foram fatores importantes neste processo. Apesar disto, na grande cidade, eles conseguiram preservar seus vínculos tribais, mantendo como se fosse uma rede de contatos informações e notícias, não se desligando da aldeia. Em 1995 um grupo de índios reuniu-se em uma área nos subúrbios de Campo Grande, construindo uma "aldeia urbana" o Desbarrancado (Fernandes Jr. 1997). Na realidade a grande maioria já vivia na cidade e juntaram-se neste local muito em razão das dificuldades crescentes que enfrentavam em viver fora da aldeia, em uma grande cidade, numa época onde operam-se grandes mudanças.
CARACTERIZAÇÃO E DISCUSSÃO Em estudo seccional realizado entre 1997/1998, envolvendo 214 pessoas, com idade igual ou maior que 19 anos. A seleção da população se deu ao acaso, pacientes sabidamente diabéticos foram excluídos do estudo. Foi utilizado a determinação da glicemia capilar, utilizando-se de equipamento Glucometer (Bayer) e tiras reagentes do mesmo fabricante. As coletas ocorreram sempre nos finais de semana e as pessoas submeteram-se ao teste independentemente de terem alimentado- se. Valores iguais ou acima de 200mg/dl foram considerados alterados. Constatamos que a glicemia aumentava com a idade, em ambos os sexos e que nos grupos com idade entre 20-44 e 45-64 anos, 25% dos homens e 44,1% das mulheres eram obesos, respectivamente. Quando avaliada a glicemia da população acima dos 40 anos, as taxas foram maiores em aldeias mais próximas das cidades, não diferindo da média nacional, exceto na chamada aldeia urbana" onde a prevalência foi de 12,5%. A obesidade foi caracterizada pelo IMC (Índice de Massa Corporal)com valores iguais ou maiores que 30 kg/m2 e esteve presente em todas aldeias estudadas. Este perfil de pessoas jovens com aumento de peso é comentado por Weiss et al. (1984). Estes pesquisadores acreditam na existência de uma seqüência de eventos manifestados após a puberdade com as características de: tendência das pessoas tornarem-se obesas, de ocorrer a formação de cálculos de colesterol e manifestarem diabetes do tipo adulto. A elevada prevalência de diabetes mellitus tipo II entre as tribos de americanas é de há muito tempo conhecida, sendo os índios Pima o protótipo desta situação com uma prevalência chegando a 50% .Dados recentes estão a confirmar as diferenças de prevalência entre grupos raciais, com predomínio da doença entre os índios (CDC 1998). Na América do Sul é possível que o problema não tenha ainda a mesma expressão, até porquê algumas populações indígenas ainda podem conservar algumas condições e hábitos de vida tradicionais. Não obstante, os dados disponíveis apontam já serem as doenças degenerativas uma das cinco causas mais importantes de mortalidade. Vieira-Filho (1996) refere que nos anos setenta os índios Xavantes eram esbeltos, tinham grande atividade física e os níveis de hemoglobina glicosilada eram normais e que nenhum caso de diabetes mellitus havia sido detectado. Porém, nos últimos anos, observou obesidade e casos de diabetes neste grupo, atribuindo o fato a influência de uma dieta predominante de arroz. Baruzzi et al.(1983) refere o surgimento de obesidade e diabetes entre os índios do Alto Xingu, quando eles migraram para uma área urbana. No Brasil em 1991 foi constatado uma prevalência de 7,6% de diabetes na população com idade entre 30 e 69 anos e uma taxa de obesidade na população acima dos 20 anos de 19,2%, com 12,2% nas mulheres e 7.0% nos homens (IBGE) . Willems (1947 ) estudou 45 índios de Terena da região de Aquidauana (MS) e encontrou uma altura média de 161.7 e 149.7 cm para homens e mulheres, respectivamente. Encontramos na população acima de 20 anos valores entre 150 - 170 cm de altura. Estes médias são mais altas, mas, elas não diferem estatisticamente dos valores observados anteriormente. No Desbarrancado "aldeia urbana" todos os parâmetros são distintos dos das demais aldeias. Como Santos & Coimbra (1996) nós argumentamos que este grupo teve também um impacto em sua morfologia provocado por modificações na dieta e estilo de vida. A disposição central da gordura corporal foi por nós observada especialmente no grupo feminino e era independente do IMC. De fato, a medida da cintura neste grupo foi sempre maior que 80 cm, em toda faixas de idade e também nas diferentes aldeias. Nos homens medida superior a 94 cm foi encontrada somente na aldeia urbana. Sabe-se que a relação cintura/quadril e a medida da cintura estão diretamente e independentemente associadas com risco de doença das coronárias em mulheres, além de que esta forma de distribuição de gordura, contribui independentemente para maior risco de doenças cardíacas (Rexrode et al. 1998 ). Pesquisadores brasileiros demonstraram um importante aumento de peso e presença de obesidade na população; este aumento tem um caráter epidêmico e se dá predominante nos segmentos mais pobres, segmento este onde seguramente estão os índios brasileiros (Abeso,1998 ). Nós encontramos poucos índios com idade mais avançada, faixa esta onde as enfermidades degenerativas predominam. É provável que uma parte importante deste grupo adulto tenha se dispersado ou atingido sua expectativa de vida. Por esta razão deve-se registrar a possibilidade de um erro de amostragem com repercussão nos parâmetros observados. Nossos agradecimentos à Profª Ana Alice Teixeira pelas sugestões e críticas apresentadas.
BIBLIOGRAFIA ABESO. Consenso Latinoamericano de Obesidade. 1998 Cardoso de Oliveira, R. Urbanização e Tribalismo. A Intergração dos Índios Terêna numa Sociedade de Classes. Rio de Janeiro. Zahar Editores. 1968 Carvalho, E. de Assis. As Alternativas dos Vencidos. Rio de Janeiro. Ed. Paz e Terra.1979 CDC. Prevalence of Diagnosed Diabetes Among American Indians/Alaskan Natives-United States, 1996; MMWR 1998;47(42)901-4. Fernandes Jr J. R. Da Aldeia do Campo para a Aldeia da Cidade: O Êxodo dos Índios Terena para o Perímetro Urbano de Campo Grande-MS. Campo Grande, 1997. 77p.Dissertação (Mestrado) Universidade Católica Dom Bosco. Moura,R.C.S. Expectativa de Vida dos Povos Indígenas Brasileiros. 1997. Relatório. Oberg, Kalervo. Organização Social e Lei Terena.1985;Terra Indígena 33:9-21. Rexrode, K.M.; Carey,V.J.; Hennekens,C.H.; Walters, E.E.; Colditz,G.A.; Stampfer, M. J.; Willett,W.C.; Manson.J.E. Abdominal Adiposity and Coronary Heart Disease in Women. JAMA. 1998;280:1843-1848 Santos, R.V. & Coimbra Jr, C.E.A. Socieconomic Differentiation and Body Morphology in the Suruí of Southwestern Amazonia. Current Anthropology 1996; 37(5):851-6. Telarelli Jr., R. Relato Acerca das Condições de Saúde e de Saneamento de algumas Aldeias Terena, na Região de Aquidauana-Miranda,MS. 1984; Terra Indígena 29:18-27. Vieira-Filho, J.P.B. Emergência do Diabetes Melito Tipo II entre os Xavantes. Rev. Ass. Med. Brasil. 1996; 42(1)61-2.Letters. Weiss, K. M.; Ferrel,R.E. ; Hanis, G.L. A New World Syndrome of Metabolic Diseases with Genetic and Evolutionary Basis. Yearbook of Physical Anthropology . 1984; 27:153-78.
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