“Precisamos avançar na prevenção voltada às pessoas vivendo com HIV”. Esta é a opinião da pesquisadora da Universidade Estadual de São Paulo, Elen Rose Ladeiro, que acredita que a prevenção posithiva pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida de quem vive com o vírus. Também concorda com a sanitarista o coordenador-geral da Associação Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Aids (Abia), Veriano Terto Júnior. Eles proferiram palestra na manhã de quinta-feira, 23, no Seminário Brasil França, realizado em Fortaleza de 23 a 24 de novembro.
A prevenção posithiva é um conceito que agrega a prevenção, assistência e direitos humanos na construção de uma política integral direcionada a pessoas que vivem com HIV. Este conceito norteia a campanha do Dia Mundial de Luta contra a Aids, lançada pelo Ministério da Saúde e que promove o protagonismo das pessoas vivendo com HIV como forma de combater a discriminação e o estigma da aids. Veriano Terto destaca o estigma como um dos fatores que interferem na qualidade de vida dessas pessoas. “Para avançar, temos que conhecer melhor as dimensões sociais e políticas que a prevenção traz. Temos de melhorar a prevenção para que essas pessoas não se re-infectem e não infectem outras pessoas. Prevenção não pode se resumir a distribuir camisinhas”, defende.
A partir do momento que a pessoa recebe seu diagnóstico, ela tem de lidar com valores e representações relacionados à aids. “Muita gente associa a aids a ser promíscuo, irresponsável, violento, ou seja, o soropositivo é discriminado e acaba criando mecanismos para se preservar e preservar sua família, seu parceiro”, explica o especialista, que valoriza a confidencialidade do profissional de saúde no aconselhamento e assistência ao portador do vírus.
O cuidado para não invadir a vida do outro também é lembrado por Elen Ladeiro. Para ela, aprimorar o modelo assistencial é um desafio para a saúde pública. “A prevenção posithiva remete a antes do adoecer e é determinante no prolongamento da vida e na adesão ao tratamento. As pessoas com HIV têm planos, família, vida sexual ativa e é preciso entender as necessidades deste público: eles querem ter parceiros, filhos, sociabilidade, mas os serviços de saúde ainda não estão preparados para esta realidade. Saber fazer prevenção posithiva adequadamente é fazer atenção integral de qualidade”.
Para Ronaldo Hallal, assessor técnico do Programa Nacional de DST e Aids, o desenvolvimento e uso de tecnologias (carga viral, tratamentos com medicamentos mais recentes, teste de genotipagem) melhoram as condições de saúde da população que vive com HIV. Além disso, Hallal acredita que a interdisciplinaridade, a rede de apoio social, a participação de quem vive com HIV nas ações e o reconhecimento de suas diferenças servem para renovar a política brasileira de combate à epidemia.
Veriano Terto enfatiza, além do estigma e da sexualidade, a mobilização interna e externa como outro eixo relacionado à prevenção posithiva. A mobilização interna é o mecanismo que cada pessoa desenvolve para lidar com a aids no seu cotidiano. Experiências com doenças anteriores ou outras situações desafiadoras com as quais houve superação podem ser formas de mobilização interna. Já a mobilização externa pode ser a ajuda vinda de organizações da sociedade civil, dos encontros com pessoas com HIV, da troca de experiências.
A Abia promove ações que buscam reduzir o estigma e valorizar a pessoa com HIV. A instituição - que foi criada pelo sociólogo Betinho – oferece atividades para casais sorodiscordantes (em que um dos parceiros é soropositivo e o outro não) e oficinas de valorização do corpo para quem vive com o vírus. Em novembro, a Abia divulgou dois filmes e dois spots de rádio sobre viver com aids, mostrando que HIV e qualidade de vida podem caminhar juntos.
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