Governo retoma articulação para reeditar o programa Afroatitude
A retomada do programa Afroatitude será o ponto principal de uma reunião que acontecerá em Brasília, na segunda quinzena de julho. A decisão foi tomada durante a II Mostra Afroatitude, que acontece como atividade prévia do VII Congresso Brasileiro de Prevenção às DST e Aids, que se realiza em Florianópolis (SC), de 25 a 28 de junho. Participarão do encontro representantes do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde, de duas secretarias especiais ligadas à Presidência da República (Políticas de Promoção da Igualdade Racial/SEPPIR e Direitos Humanos/SEDH) e da Secretaria Nacional da Juventude, além de estudantes e professores universitários.
De acordo com os participantes da Mostra, o maior desafio para reeditar o Afroatitude é garantir sua sustentabilidade financeira. Estima-se que seja necessário R$ 1,872 milhão para atender dez universidades durante um ano. Cada instituição contaria – de acordo com essa previsão – com 50 bolsas para alunos, no valor de R$ 300, e com uma de R$ 600 para o professor coordenador. Na reunião do próximo mês, também serão debatidas questões como a gestão do programa e a articulação com outras áreas do governo.
Representando a SEPPIR no encontro, Maria do Carmo Ferreira da Silva anunciou a intenção da pasta em assumir a gestão do programa e, assim, promover a aproximação com outros parceiros dentro do governo. A idéia, segundo ela, não é pensar o programa como uma iniciativa da atual gestão, mas como uma ação do Estado. “Além dos recursos, é preciso capacitar servidores públicos e fazer com que eles se apropriem do Afroatitude”.
Histórico – O Afroatitude foi criado em 2005, dentro do “Programa Estratégico de Ações Afirmativas: população negra e aids”. Previsto para vigorar inicialmente por um ano, beneficiou cerca de 500 estudantes cotistas de dez universidades públicas, até 2007. Dentro do programa, foram desenvolvidos projetos nas áreas de saúde, vulnerabilidades ao HIV e à aids, racismo, protagonismo e ações afirmativas. Sob a coordenação do Programa Nacional de DST e Aids, foi investido cerca de R$ 1,7 milhão.
Para Karen Bruck, coordenadora do Afroatitude no Ministério da Saúde, os estudos desenvolvidos nos dois anos do programa ajudaram a responder uma lacuna de conhecimento sobre a questão racial da epidemia. “O maior ganho [do Afroatitude] foi que o tema se tornou transversal. Hoje, todos os planos do Programa Nacional de DST e Aids têm o quesito raça e cor”.
Na visão de Aurelielza Santos, estudante da Universidade Estadual da Bahia (UNEB), o Afroatitude ajudou a dar novo significado ao espaço dos cotistas nas instituições. “Tínhamos medo do que falariam de nós por causa das cotas. [...] O programa nos ajudou a conquistar respeito, direito e a permanecer na universidade”, ressalta a estudante, que desenvolveu o estudo “Vulnerabilidade e Avaliação de Ações Preventivas no Ensino Médio do Município Santo Antônio de Jesus – BA”.
Perspectivas – A retomada do programa vai beneficiar gente como a estudante de Letras Maria Félix de Carvalho, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Bolsista em 2005, ela iniciou trabalho sobre racismo e preconceito nas séries iniciais do ensino fundamental. “Meu projeto não parou porque há muita carência de trabalho sobre essas séries, mesmo no ensino infantil”. Com a bolsa, ela e sua orientadora chegaram a ministrar palestras para professores de escolas de Nova Andradina (MS), onde mora, e de Taquarussu e Bataiporã, municípios vizinhos.
O diretor-adjunto do Programa Nacional de DST e Aids, Eduardo Barbosa, acredita que o maior avanço do encontro foi o compromisso da SEPPIR em incorporar o Afroatitude às suas linhas de ação. “O programa de aids cumpriu seu papel de estimular o debate e promover respostas para a população negra. É importante que, a partir de agora, isso seja implementado por outras áreas do governo”.
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