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 DST e aids nos jornais
  MILTON NEVES
  11/03/06
  


 

Por Adriana Negreiros


O jornalista esportivo e apresentador do Terceiro Tempo Milton Neves desperta amor e ódio na mesma intensidade. Quem o admira cita, entre suas qualidades, a memória prodigiosa para lances do futebol antigo - é capaz de citar, sem titubear, a escalação e o placar de um obscuro jogo de futebol da década de 60 - e a espontaneidade frente às câmeras. Seus detratores referem-se a ele como um reles garoto-propaganda, que entope o tempo de seus programas com comerciais de cola instantânea a lojas populares de eletrodomésticos. Também o têm na conta de um sujeito vaidoso, um tanto ambicioso e extremamente pão-duro. Os são-paulinos e palmeirenses também não suportam sua alma santista. À exceção do pãodurismo, todas as outras acusações são tidas por Milton Neves como grandes elogios. "A ausência de vaidade e ambição impede o crescimento profissional", diz. "E não existe nenhuma lei que impeça um jornalista de fazer merchandising. Então cada um que cuide de sua vida." No casamento do jogador Kaká, no fim do ano passado, Milton Neves era um dos mais animados. Acabara de realizar um desejo - conhecer pessoalmente Ronaldo, o Fenômeno. E, mais que isso, ser tratado pelo ídolo como "o rei do futebol". Há tempos, Neves temia esse encontro. No auge da crise do Fenômeno, às voltas com intermináveis lesões no joelho, Milton Neves comparou o jogador a um carro velho. "Uma hora quebra o motor, depois a suspensão, a lataria, o amortecedor", disse o jornalista, à época. "Ih, cacete, esse cara vai me ferrar", pensou alto, no caminho entre sua mesa e a de Ronaldo, puxado pela mão do jogador Robinho. "Ao contrário, ele se desculpou por ainda não ter ido ao meu programa", conta. A alegria com a simpatia de Ronaldo foi tamanha que Milton Neves decidiu comemorar. E, como era 23 de dezembro, desejou Feliz Natal a um dos convidados da festa que encontrara por acaso na fila do bufê - o empresário Tutinha Amaral, dono da Jovem Pan. "Feliz Natal porra nenhuma. Você tá fodendo o velho e eu vou foder você", teria retribuído Tutinha. O velho em questão é Tuta Amaral, pai do empresário e ex-patrão de Milton Neves. Foi na Jovem Pan que Neves iniciou e construiu sua carreira de jornalista. Da primeira ocupação, como repórter de trânsito, à última, como apresentador do programa Terceiro Tempo, foram 33 anos. A saída foi tumultuada. "Fui humilhado e segregado a cantinhos. Fui tirado do ar e o seu Tuta quis apagar a marca Terceiro Tempo", conta Neves. Alegando questões trabalhistas e danos morais, o jornalista move uma ação milionária contra a Jovem Pan, estimada em 30 milhões de reais. Mesmo antes de sair da Jovem Pan, há oito anos, a principal vitrine do jornalista já era a televisão. Começou na Bandeirantes, à frente do Super Técnico, e depois foi contratado  pela TV Record. Na emissora dos bispos, virou showman. Apresentou programa policial, o Cidade Alerta, um outro de entretenimento, o Roleta Russa, e hoje dedica-se exclusivamente ao esporte, com o Terceiro Tempo e o Debate Bola. Na Rede Mulher, também comanda um programa esportivo, o Golaço. Apesar do sucesso na TV, Neves não deixou o rádio. Quando saiu da Jovem Pan, foi imediatamente contratado pela Rádio Bandeirantes, apesar de ter prometido à família que iria maneirar no trabalho. Em 2003, Milton Neves aceitou um convite para ser colunista da revista Placar. Os amigos dizem que, de tão workaholic, o jornalista não se permite aproveitar as benesses da fama e do dinheiro. Aos 54 anos, casado com uma dentista e pai de três filhos, Milton Neves é um dos jornalistas esportivos mais bem pagos do Brasil. Sua renda mensal, entre salários e faturamento de merchandising, gira em torno de 1 milhão de reais. Com esse dinheirão, ele podia dormir em cama de rei. Mas diz que sua rotina de trabalho é tão pesada que dorme em casa apenas duas vezes por semana. Nos demais dias, divide-se entre um flat, no centro de São Paulo, e o camarim da TV Record. Milton Neves nasceu na pequena cidade de Muzambinho, no interior mineiro, e teve uma infância difícil. Morou na casa de uma tia até a adolescência, junto com a mãe e o irmão mais velho - o pai morreu quando ele tinha 8 anos, de tuberculose. Até hoje, ele se lembra com constrangimento das roupas desgrenhadas que era obrigado a usar. Sem dinheiro para comprar em lojas de pronta-entrega, sua mãe encomendava as roupas dos filhos a uma costureira da vizinhança. "Eram uns calções tortos", afirma. Antes de se decidir pelo jornalismo, Neves passou um tempo à toa, virando noites em mesas de baralho e tentando, em vão, passar no concurso do Banco do Brasil. Até que um convite para testar o som de um alto-falante da quermesse de Muzambinho fez mudar sua vida. O apresentador recebeu a repórter Adriana Negreiros em duas ocasiões. Na primeira, em sua casa, estava gripado e com febre (uma das preocupações mais recorrentes de Neves é sua saúde. Sente-se estressado, está 8 quilos acima  do peso, acabou de perder um dente e tem insônia). Era um sábado chuvoso e Neves mostrava-se particularmente emotivo. Interrompeu a entrevista inúmeras vezes para desabar em um choro incontido, cheio de soluços. Para acalmar-se, bebeu canecas e mais canecas de chá. Na segunda oportunidade, recebeu-a em seu escritório, que funciona no mesmo prédio da Jovem Pan. Por isso, eventualmente, Milton Neves encontra no elevador não só seu desafeto Tutinha como também toda a trupe de humoristas do programa Pânico - inclusive o Mendigo, que interpreta o personagem Merchan Neves.


PLAYBOY> Você tem fama de pão-duro.
Milton Neves > Isso é uma injustiça. Devem dizer isso porque eu não assino aval pra ninguém, não empresto dinheiro. Porque depois o cara não paga, você cobra duas, três vezes e perde o amigo. Também me pedem a escritura pra ser avalista de aluguel. Eu não dou. Aí os caras ficam falando mal: "Tá vendo? Milionário, pão-duro". O meio esportivo é pobre. Então, como você está um pouco melhor, é comum as pessoas pedirem emprestado. Quando uma pessoa pede um aval para você, é melhor amarelar e não avalizar do que depois avermelhar de raiva pra pagar.

PLAYBOY> Você é mesmo milionário?
MILTON NEVES > Só querem saber se eu ganho muito. Não ganho pouco. Ao longo desses anos, eu ganhei dinheiro mesmo, pô. Um cara que trabalha feito um cavalo como eu seria um imbecil se não ganhasse. Não sou viciado em  cocaína, não tenho amante, não sou jogador de baralho, não vou a cassino. O que eu ganhei eu apliquei para minha família. Claro que tenho dinheiro. Tenho dinheiro proporcional ao suor que eu derramei.

PLAYBOY> Seu salário é de 1,2 milhão de reais por mês, como disse a Veja?
MILTON NEVES > Se você ganha 1,2 milhão por mês, sabe quanto você bota no bolso, sendo um cara correto, pagando todos os impostos? Sobram 600, 700 mil. É uma puta grana, ainda. Mas não sobra esse mais de 1 milhão, não. Posso até ter chegado a ganhar isso no passado, mas agora não é bem assim.

PLAYBOY> Você é criticado por fazer merchandising demais. Como reage a essas críticas?
MILTON NEVES > Isso é uma bobagem muito grande. Quem julga você é seu leitor, seu ouvinte e seu patrão. Se pintar uma lei que diga que jornalista, profissional diplomado, como eu, não pode trabalhar com merchandising, eu não vou trabalhar. Não há lei. Então cada um faz o que quer. O Galvão Bueno já me falou que só não trabalha com publicidade porque a Globo não deixa.

PLAYBOY> Jornalista pode se envolver com publicidade?
MILTON NEVES > Veja bem, cada um faz o que quer. A jornalista Lorena Calábria foi garota-propaganda do Banco Santos. O banco quebrou e eu perdi 53 mil reais lá. Que culpa ela tem? Nenhuma. A Marília Gabriela fez campanha pro Unibanco. Digamos que o banco venha a ter problemas. A culpa é dela? Não. Eu não faço propaganda de vodca, de pinga, de cigarro ou de loteria.

PLAYBOY> Dizem que você deu seus óculos para o Mendigo, do programa Pânico, querendo que o personagem Merchan Neves ficasse ainda mais parecido com você.
MILTON NEVES > Eu fiquei muito feliz quando surgiu esse quadro, porque estava me divulgando e foi um sucesso. E eu falei para o rapaz: "Olha, eu vi seus óculos, não estão bem". Eu não dei, mas disse pra ele ir na mesma ótica que eu freqüento e ele comprou um igual. Eu gosto do personagem.  Eu nasci em Muzambinho, rapaz. Eu tenho espingarda de matar veado na curva. Eu enxergo além.

PLAYBOY> Esse é o velho "falem mal, mas falem de mim"?
MILTON NEVES > Eu sou vaidoso. O Rogério Ceni, por exemplo, conseguiu me colocar duas vezes como notícia. Isso eu adoro. O cara lá no Japão, na vitória do São Paulo no Mundial Interclubes, lembrou de mim!

PLAYBOY> Afinal, por que você se desentendeu com o Rogério Ceni?
MILTON NEVES > Eu não tive desentendimento com ele. Aliás, ele é maravilhoso. Inclusive eu o quero na Copa e falei isso pro Parreira no casamento do Kaká. Mas o que aconteceu foi o seguinte: eu estava no estúdio num Santos e São Paulo. Eu sou Santos doente. Ia ser batido um pênalti e eu falei: o Rogério Ceni vai se adiantar. Eu entrei no ar e falei: "Ele vai se adiantar e tem que bater de novo".

PLAYBOY> Você falou isso em cima do lance?
MILTON NEVES > Foi coisa de louco, eu não podia fazer isso. O Diego bateu, o Rogério Ceni defendeu e o juiz mandou ele voltar. Aí depois o jogador do Santos bateu e foi gol. Ele saiu no meio de tudo quanto é repórter dizendo: "Foi o Milton Neves que anulou". Pô, pra mim isso é a glória! Olha que beleza! Na coletiva, ele só falou de mim e deu um trabalho danado para as outras emissoras. Foi na época em que eu tinha lançado o rádio Milton Neves e disseram que eu tinha dado um rádio pro bandeirinha e ele me ouviu mandando bater de novo [risos].

PLAYBOY> E o que aconteceu no Mundial Interclubes?
MILTON NEVES > Eu falei que o Liverpool era muito mais time do que o São Paulo e, de fato, o Liverpool ganhou por pontos. Eu não errei. Então as famílias ouviram e falaram para os jogadores que eu estava torcendo pelo Liverpool. Ora, eu quero é que o Liverpool vá pra puta que o pariu. Eu quero mais que os times daqui ganhem, porque isso é bom pra mim como jornalista e como publicitário. Aí meu repórter  da Rádio Bandeirantes foi entrevistar o Ceni e ele disse: "Fala para o Milton Neves entrevistar o jogador do Liverpool". Isso pra mim é maravilhoso! Depois a delegação chegou ao Brasil e, quando passou em frente à Rede Mulher, em São Paulo, os torcedores jogaram ovo numa foto minha que tem na fachada. Gritaram: "Milton Neves se fodeu". Eu adoro isso.

PLAYBOY> Você parece que coleciona desafetos, como o jornalista Juca Kfouri.
MILTON NEVES > O Juca Kfouri construiu a carreira dele patrulhando jornalistas. Mas você tem que desconfiar do cara que bate no peito e fala: "Eu sou ético". Pô! O cara entrevistou o Pelé e teve envolvimento comercial com ele. Ele levou um evento para uma feira organizada pela Pelé Esportes e Marketing. Como comissão de corretagem, ganhou 10%, o equivalente a 20 mil dólares. E no outro ano recebeu mais 20 mil dólares. Isso é ético? Qualquer jornalista poderia ter feito isso, menos ele, que fala que jornalista só pode ser jornalista. Mesmo que o Juca Kfouri descubra amanhã que eu inventei a aids e derrubei as torres gêmeas, isso não vai limpar a barra dele. Ele é antiético e incoerente, porque fez escondido o que condena publicamente. Outro cara é o José Trajano. Ele morou na casa do Sócrates, em Florença. Você acha que um jornalista pode morar na casa de um jogador e depois falar dele?

PLAYBOY> Vamos falar de outros desafetos. Você chutou a bunda do Sílvio Luiz?
MILTON NEVES > É o que dizem. Não me lembro. E eu fico muito feliz que tenha sido só um chute. Porque eu estava tão puto com ele que poderia estar dando essa entrevista de uma penitenciária.


PLAYBOY> Como alguém dá um chute em outra pessoa e não se lembra?
MILTON NEVES > Porque eu estava muito puto! O Sílvio Luiz é meu ídolo desde moleque. E durante uns sete ou oito anos ele plantou o seguinte negócio em São Paulo: pedia para os entrevistadores perguntarem sobre mim e então dizia que não me conhecia. Ele é um cara invejoso, que está no fim da carreira e não gosta de nenhum jovem em boa fase. Em 2002, eu estou no camarim da TV Record e toca o interfone. Era uma pessoa me avisando que o Sílvio Luiz estava gravando o quadro do chapéu, do Raul Gil. Quando apareceu meu nome, ele disse que não tirava o chapéu porque não me conhecia.

PLAYBOY> O que você fez?
MILTON NEVES > Fui tomar banho. Uma semana antes, tinha mostrado o livro dele na televisão. É um livro ruim pra burro, mas queria ver se ele me esquecia. Bom, depois do banho eu vesti minha roupa e peguei o livro. Aí fiquei na porta do estúdio esperando por ele. Foi uma coisa pavorosa! Ele veio com aquela aparência de mordomo. Eu falei: "Ô seu Sílvio! O senhor acabou de falar pela milésima vez que não me conhece. Pois eu conheço muito o senhor. Tanto que mostrei seu livro na televisão e queria seu autógrafo". Ele entortou a boca e eu imaginei que ele fosse cuspir. Aí uma pessoa que estava comigo conta que ele se virou pra fugir e dizem ainda que lhe dei um chute na bunda. Mas eu não me lembro.

PLAYBOY> Outro desafeto: Jorge Kajuru. Por que vocês não se dão?
MILTON NEVES > Coitado. Eu já tive muita raiva dele. Mas um dia eu estava vendo o programa da Adriane Galisteu e ele falou da mãe dele. Foi uma coisa muito verdadeira, me comoveu muito. Ele contou um negócio que me chocou. Disse que fez troca-troca. Fiquei pensando com meus botões: o Kajuru fazendo troca-troca! Quem foi o cara que fez troca-troca com ele? Porque o  Kajuru é gordo e feio. Esse cara que transou com o Kajuru é o Pelé do tesão. Porque o Kajuru é incomível.

PLAYBOY> Por falar em tesão, você trabalha ao lado de uma tremenda gata, a Renata Fan.R ola um clima?
MILTON NEVES > Não tenho um pingo de tesão nela. Ela é gostosa, maravilhosa, cheirosa, mas eu a vejo como filha e neta. Eu até brinco muito porque ela é magra demais. Eu digo: "Renata, você é muito seca. Mulher tem que ter carne, igual às gaúchas". Não é que a mulher seja gorda, mas tem que ser roliça.

PLAYBOY> Você sempre está acompanhado de mulheres lindas - no passado, trabalhou com a Luize Altenhofen e a Dani Freitas. Sua mulher não sente ciúme?
MILTON NEVES > Nunca aconteceu nada entre mim e essas moças. Muita gente me pergunta se eu fiz teste do sofá. O pessoal pergunta: "Eh, Milton Neves, cê tá catando a Renata Fan, hein?" Eu falo que não é verdade, mas meus amigos dizem: "Claro que ele come, você acha que não?" Então chega à minha mulher a informação de que eu tô pegando a Renata. Mas ela sabe que não. Eu sou do tempo de namorar, noivar e casar. Ela só teve um namorado, que fui eu. Eu tive umas namoradas, mas sério, mesmo, só ela. Ela sabe muito bem que eu não sou nenhum garanhão. Isso pra mim não é prioritário.

PLAYBOY> Quantas namoradas você teve?
MILTON NEVES > Foram tão poucas que eu sei. O Nasi disse para a PLAYBOY
que transou com 1 150 mulheres e eu tive duas em Curitiba e umas três ou quatro aqui em São Paulo. Eu vim pra São Paulo pra trabalhar. Sou workaholic. Sabia que eu nunca usei camisinha? Nem sei colocar. Minha vida sexual é um livro de 10 mil páginas, todas em branco.

PLAYBOY> Você recebe muitas cantadas?
MILTON NEVES > Não, eu não sou bonito, não sou gostoso e tenho 54 anos. Uma menina gostosa de 21 anos que quer dar vai procurar um molecão. E também eu não noto. Tinha uma repórter na Jovem Pan, já faz uns 15 anos. A moça era uma gostosa. E eu  cheguei esbaforido pro Jornal dos Esportes e ela me chamou. "Ô Milton, eu pedi demissão e não quero ir embora antes de tirar uma dúvida. Você é veado?" Eu falei: "Moça, é a primeira vez que alguém pergunta isso pra mim. Eu tenho plena convicção de que eu não sou. Mas me permita, minha senhora: por que essa pergunta?"

PLAYBOY> E o que ela disse?
MILTON NEVES > Eu até perdi a pressa e pedi pra tocarem o programa pra mim. E ela disse: "Estou aqui tem quatro anos, louca pra dar pra você, encostei, arrastei asa, fiz tudo". Eu disse: "Moça, mas eu não notei. E olha que você é gostosona. Vamos fazer o seguinte: vamos  hoje?" Mas ela falou que era tarde demais. E também eu não ia. Tem cada mulher louca, meu Deus do céu.

PLAYBOY> Como foi sua primeira vez?
MILTON NEVES > Foi com uma moça chamada Jussara. Ela tinha uns 20 e poucos anos. A cortina de lá era vermelha e verde, nunca vou me esquecer. Eu tremia! Naquele tempo, o nosso medo era pegar chato. Passávamos sabão no corpo, pegávamos a gilete e raspávamos. Depois a gente tinha medo de gonorréia.

PLAYBOY> A Jussara era prostituta?
MILTON NEVES > Era. Deve ter custado, a dinheiro de hoje, uns 5 reais. A gente roubava manga e vendia depois. E minha avó Beatriz criava galinha. Eu vendia algumas para um delegado e com esse dinheiro ia pro cinema, comprava  sorvete e figurinha. Sobrava um pouquinho e a gente ia pra zona.

PLAYBOY> Você ia muito?
MILTON NEVES > Não. Mas a segunda vez também foi lá, com uma puta chamada Tonha Perua. Era uma mulher que usava uma alparcata com meia. Tinha uns 50 e poucos anos. A gente ficava na recepção esperando a vez. Tinha cinco ou seis moleques, um com ela e os outros esperando, igual dentista. A gente ficava morrendo de medo. Aí a Tonha Perua saiu e perguntou: "Quem é o próximo?" Eu disse: "Sou eu". Ela perguntou: "Como você se chama?" Eu respondi: "Mirtinho". E aí ela perguntou: "Com peito ou sem peito?" Eu disse que era sem peito e ela tum, tum [simula o ato de jogar os peitos para trás dos ombros].

PLAYBOY> Por que o seu apelido de infância era Mirtinho Bolão?
MILTON NEVES > Eu era muito magro e fiquei subnutrido. Aí um médico receitou para minha mãe uma emulsão de fígado de bacalhau. Me deram uma dose exagerada e eu fiquei gordo. A única coisa que eu fazia bem era nadar. Aí, cara, a Maura, minha primeira namorada, largou de mim alegando que eu não tinha futuro. Eu era um péssimo partido. Era pobre, não tinha pai e morava em uma casa feia. Não tinha um sofá, cara. O maior sonho da minha vida era ter um sofá bonito [enquanto fala isso, Milton se esparrama no imenso sofá de sua sala de estar].


PLAYBOY> Você tentou jogar futebol e era péssimo.Como passou a gostar?
MILTON NEVES > Um dia, meu primo estava ouvindo um jogo no rádio gaiola da minha avó. O jogo era Santos e Palmeiras, decisão do supercampeonato de 1959. Eu não gostava de futebol e ia pra jabuticabeira, que é o lugar de que eu mais gostava na minha casa. Daí a pouco eu voltei e os dois estavam tristes pra burro, porque o Palmeiras havia ganhado. Naquela narração me chamou a atenção a palavra Pagão. Era Pelé, Pepe e Pagão. Juninho, Laércio, não sei o quê, Pagão. Aquela palavra enchia o rádio. Eu falei: "De quem é o Pagão?" "É do Santos." "Ah, então eu sou Santos." E virei santista.

PLAYBOY> E você acompanhava as partidas?
MILTON NEVES > Minha vida era ficar na beirada de um rádio GE que minha tia comprou nas casas Mazili. Minha casa nunca teve televisão, geladeira. Pra comprar um rádio pra mim, minha tia teve que assinar 24 notas promissórias. Em dinheiro de hoje, devia custar uns 60 reais. Pra você ver como a gente era pobre, rapaz! A coitada, pra comprar um rádio pra mim, porque meu primo Caio não me deixava ouvir o rádio Pioneer dele, teve que assinar nota promissória com avalista!

PLAYBOY> A primeira vez que você viu o Santos jogar foi contra o Comercial de Ribeirão Preto, em 1965, certo?
MILTON NEVES > Eu tinha 14 anos. Meu sonho era ver o Pelé de perto. Eu pegava a Gazeta Esportiva e via as fotos do Santos treinando. Daria a vida pra ver esses caras de perto. Aí um tal de Moisés alugou uma Kombi e organizou uma caravana de oito pessoas para Ribeirão Preto. Eu soube daquilo e falei: "Madrinha, deixa eu ir com o Moisés. Nós vamos ver o Pelé". E ela respondeu: "Mas, meu filho, eu não tenho dinheiro" [nesse momento, ele tem um ataque de choro].

PLAYBOY> Como você fez para conseguir ver o jogo?
MILTON NEVES > Rapaz, eu fiquei feito sarna. Aquilo pra mim era como se fosse uma viagem pra Lua! Ela viu meu drama, juntou dinheiro, sei lá como. Tinha que pagar a gasolina, o ingresso e a comida. E eu vi o Santos jogar em 1965 [a voz fica embargada]. Eu fiquei no alambrado, pertinho da lateral direita, e vi o Carlos Alberto jogando no primeiro tempo marcando um ponta-esquerda chamado Carlos César. O Pelé não veio pra lateral, ficou mais na área. Não vi o Pelé de perto. Mas ele jogava muito.

PLAYBOY> Você fala muito na sua tia. Por que morava na casa dela?
MILTON NEVES > Porque eu não tinha casa. Quando meu pai morreu, eu tinha 8 anos. Eu mal o conheci, porque ele tinha problemas de pulmão e ficava muito tempo em Campos do Jordão. Ela ganha hoje mil reais. Ela criou  todos nós, ganhou uma porcaria, tá lá com mal de Alzheimer [começa a chorar]. Agora eu pago quatro enfermeiras que cuidam dela.

PLAYBOY> É verdade que sua primeira experiência com microfone foi numa quermesse, em Muzambinho?
MILTON NEVES > Terminou a sessão de cinema e eu fui passear, dar uma olhada nas meninas. Então passamos em frente a um sujeito com um cigarro Lincoln na boca, sem filtro. Ele me chamou e me mandou entrar num lugar. Cheguei lá e vi uma tábua em cima de um monte de tijolos, um amplificador, uns fios, uns toca-discos. Ele disse: "Fala alguma coisa, Mirtinho". "Mas falar o quê. cê tá louco? Eu não sei falar nada", eu respondi. Mas acabei falando "Quermesse. Igreja. São José. Frango cheio. Leitão assado". E ele foi lá pra fora ver se o som estava saindo. Era um teste de microfone. E a partir desse momento uma coisa com a mão de Deus começou a mudar minha vida.

PLAYBOY> Por quê?
MILTON NEVES > Porque eu falei e aquilo reverberou. Meus amigos disseram:"Cê tem voz boa, né, Mirtinho?" Aí mais na frente outro cara falou a mesma coisa. Então eu pedi pra falar de novo. A muito custo ele deixou. E eu disse: "Meus amigos de Muzambinho, este é o serviço de alto-falante montanhês. Queremos dizer que a Paróquia de São José e tal". Aí eu falei legal. E todo mundo disse que eu tinha voz boa. Dali a dez dias montaram uma rádio  clandestina chamada Rádio Continental. E eu fui o primeiro a ser chamado pra apresentar o programa.

PLAYBOY> Que programas você apresentava?
MILTON NEVES > Primeiro um programa musical e depois um de esportes. Eu ficava só falando bem do Santos, com a voz empostada. Um dia, no intervalo do programa, eu fui numa loja em frente comprar pastel e quibe. Aí o dono da loja, o Alencar, veio falar comigo. "Mirtinho! Você fica empostando a voz e fica horrível. Tua voz é bonita, fala com tua voz normal." Nunca mais empostei. E do lado da loja tinha um bar que era do meu sogro. Um dia, meu sogro estava ouvindo a Rádio Bandeirantes e eu falei: "Ainda vou trabalhar nessa rádio". Ele respondeu: "Só se for limpando privadas". E hoje eu estou trabalhando lá. Meu sogro ainda lembra disso. Ele dá risada.

PLAYBOY> Você queria ser funcionário do Banco do Brasil. Por que mudou de idéia?MILTON NEVES > Meu sonho era passar no Banco do Brasil, casar com a Lenice, ter oito ou nove filhos e abrir um bar em Muzambinho. Mas eu era péssimo em datilografia, química, física e matemática. Como é que eu ia passar? Uma vez nós fomos fazer o concurso lá em Guaxupé [cidade vizinha]. Na volta, nunca vou me esquecer disso, minha mãe e minha tia estavam me esperando na porta. Aí, quando eu desci da Kombi e olhei pras duas, elas foram para dentro da casa chorar. Só de olhar na minha cara elas viram que eu não tinha jeito de passar.

PLAYBOY> Quanto era o seu salário na Rádio Continental?
MILTON NEVES > Em dinheiro de hoje, valia uns 180 reais. Dava para comprar duas coisas: palmito e salsicha de lata. Porque a comida na minha casa era arroz, feijão, um pouco de carne. Guaraná Antarctica, só quando ficava doente. Quando a minha mãe conseguia comprar guaraná, a gente pegava um prego e fazia um furo na tampa. E ficava chupando aquilo devagarzinho, pra durar. Lá em casa nunca tinha salsicha e palmito e quando  eu comprava era a maior alegria do mundo. Ah, rapaz, eu comia aquilo com uma satisfação tão grande!

PLAYBOY> Houve um momento na sua vida em que você resolveu sair de Muzambinho e ir para Curitiba. Por quê?
MILTON NEVES > A rádio tinha fechado e eu estava vagabundando. Só queria saber de jogar sinuca e baralho. Fui pra Curitiba de carona, num DKW. Meu irmão morava lá, mas eu não podia morar na casa dele. Morei dois meses clandestino na Casa do Estudante Universitário e depois fui para uma pensão. Eu fiz cursinho pra tentar odontologia. Minha tia me mandava uma parte do dinheiro dela, coitadinha, mas acabou. Eu tinha que trabalhar. Fui em todas as rádios fazer teste e consegui um emprego na Rádio Colombo. Trabalhei seis, sete meses.

PLAYBOY> E por que você voltou para Muzambinho?
MILTON NEVES > Eu passei muito frio e muita fome em Curitiba. A impressão que me dava era a de que eu morava na Sibéria, pela temperatura e pela distância. Quando eu ia pro cursinho, passava por uns buracos e chovia muito. Eu tinha só um sapato e meus amigos iam pra aula de coturno, que vendia numa loja lá perto. Eu até fui ver quanto era, mas não tinha dinheiro pra comprar. Então eu descia do ônibus com meu sapatinho vagabundo e tinha que atravessar a rua cheia de lama, tipo 2, 3 graus. Eu passei fome. Fiquei magro pra burro.


PLAYBOY> Depois você foi pra São Paulo estudar jornalismo...
MILTON NEVES > Eu estava lendo a Folha de S.Paulo e vi o anúncio: "Tornese um jornalista. Sociedade Paulista de Ensino Renovado Objetivo". Falei: "É pra lá que eu vou". E a coitada da minha tia teve que fazer um empréstimo. Eu mudei pra São Paulo e morava numa pensão na alameda Jaú. Passei no vestibular, mas sabe por quê? Porque tinha 200 vagas e só uns 300 candidatos.

PLAYBOY> Você pediu bolsa ao Di Genio, dono do Objetivo?
MILTON NEVES > Tinha uma japonesa  terrível que não me deixava entrar na faculdade porque eu não pagava as mensalidades. Aí eu e uns colegas ficamos de plantão na garagem da faculdade durante uns dez dias pra tentar encontrar o Di Genio. Havia dois carros importados no Brasil. O Di Genio tinha um Mercedes, e hoje eu tenho um. Mas a muito custo nós cruzamos com ele e pedimos uma bolsa pra mim. Ele disse: "Não botei faculdade pra fazer filantropia". Eu fiquei tão envergonhado! A turma também baixou a bola. Mas aí ele viu que foi muito duro, voltou e disse: "Ô grandão! Procura o Fernando Vieira de Melo [então diretor de jornalismo da emissora] lá na Jovem Pan. Fala que fui eu que mandei". Fui lá, fiz o teste e fui contratado.  Perguntei o que ia fazer e o Fernando me disse que eu ia ser repórter de trânsito do Detran. Eu falei: "Mas eu não conheço nenhuma rua de São Paulo". Ele disse: "Então vá pra puta que o pariu, vá passar fome e não me enche o saco". Eu aceitei o emprego.

PLAYBOY> Você contou que era um caipira. Por quê?
MILTON NEVES > Quando eu cheguei no Detran pra ser repórter setorista, eu não sabia atender ao telefone. Eu já tinha 21 anos. Tocava o telefone e eu ficava com medo como se fosse uma cobra, porque não sabia o lado de falar e o lado de ouvir.

PLAYBOY> Como você virou jornalista esportivo?
MILTON NEVES > Numa quarta-feira, o  Osmar Santos foi ao Detran resolver um problema do documento do carro dele, um Corcel vinho. Enquanto esperava, ficou conversando comigo sobre futebol. Ele estava explodindo, era 1973. Aí ele voltou pra rádio e logo depois alguém me ligou e disse: "Pega um ônibus e vem pra cá. Você vai fazer plantão de futebol". Aconteceu que o Osmar chegou lá e falou pro Fernando: "Olha, lá no Detran tem um repórter que sabe tudo de futebol, esse cara é um gênio". E eu fui fazer plantão no lugar do Fausto Silva, o Faustão, que reclamava que a cadeira era pequena.

PLAYBOY> Numa das suas mais famosas gafes no ar, você matou o Djalma Santos...
MILTON NEVES > Isso foi em 74. Toca o telefone e o cara fala: "Milton Neves, eu estou aqui na Dutra, onde o Djalma Santos foi atropelado e o cadáver está cheio de mosquitos e formigas. Ele é campeão do mundo. Você não poderia arrumar uma bandeira?" Eu falei: "Claro, pois não". E entrei no ar: "Atenção! Djalma Santos, nosso lateral direito das copas de 58 e 62, está morto, o corpo jaz na Via Dutra, coberto por jornais, e eu preciso urgentemente de uma bandeira". Mas olha o enfoque! Não era noticiar a morte de uma lenda, mas arrumar uma bandeira pra cobrir o cadáver.

PLAYBOY> Como você descobriu que estava enganado?
MILTON NEVES > O Fernando abriu a porta aos pontapés e falou: "Seu imbecil! Quem te deu essa notícia?" Eu respondi: "Ah, um cara ligou. Você já arrumou a bandeira?" Ele ficou ainda mais nervoso: "Bandeira é a puta que o pariu, seu buuuurrrrrooooo". O Djalma Santos ligou pra rádio: "Olha, eu estou aqui no bar do Chicão, eu não morri não". A história da Dutra era um trote. Por causa disso, eu fui suspenso uma semana, merecidamente.

PLAYBOY> Em 1982, você passou a comandar o programa Terceiro Tempo, ainda na Jovem Pan.
MILTON NEVES > Aí eu explodi. Esse programa mudou minha vida. Se nascer mais um filho meu, eu vou colocar o nome da criança de Terceiro Tempo. O programa ficou no ar até  2005. No fim de 2004, o seu Tuta pisou na bola e tirou a marca do ar, tirou todas as minhas gravações, tirou qualquer referência a mim. Não sei o que aconteceu. Ele foi enfeitiçado.

PLAYBOY> Afinal, por que você está processando a Jovem Pan?
MILTON NEVES > O seu Tuta brigou comigo, me ofendeu, me humilhou muito. Eu estava vendo uns documentos com a minha advogada. Em 1994, eu já tinha 22 anos de Jovem Pan. O Terceiro Tempo estava no ar havia 12 anos. Eu era considerado um jornalista top de linha. E, meu Deus, o meu salário era ridículo.

PLAYBOY> Ridículo quanto?
MILTON NEVES > Eu ganhava por mês o equivalente ao que eu ganho hoje, na TV, por uma ação de merchandising. Mas já recusei 19 entrevistas sobre o assunto, porque não se discute uma questão judicial pela imprensa. Não vou entrar no mérito da questão.

PLAYBOY> Você tem fama de processar todo mundo. Quantos processos tem em andamento?
MILTON NEVES > Seis.Gastei mais de 300 mil reais com advogados e só ganhei mil que foram depositados no asilo de Muzambinho. Essa fama é injusta. Pra você ter uma idéia, na época da falsa entrevista do Gugu com os membros do PCC, dos quatro apresentadores policiais prejudicados - eu, o Oscar Roberto Godoy, o Marcelo  Rezende e o Luís Datena - Milton Neves foi o único que não processou. E essa era a causa mais certa de ganhar.

PLAYBOY> Em entrevista a PLAYBOY, Tutinha Amaral disse que você era um canalha porque estava processando a Jovem Pan.
MILTON NEVES > Canalha é ele, que sempre maltratou muito os funcionários e humilhou muita gente ao longo dos anos. Ele é um cara arrogante. Nunca precisei dele. Minha trajetória sempre foi na Jovem Pan AM. Se ele não gosta de mim, ótimo, porque eu também não gosto dele. Aliás, não sei quem gosta do Tutinha.

PLAYBOY> Como você foi parar na televisão?
MILTON NEVES > Fui escolhido num jantar em que estavam o J. Hawilla e o Vanderlei Luxemburgo, entre outros, para ser o apresentador do Super Técnico, da Bandeirantes. O programa entrou no ar no dia 2 de maio de 99, com as presenças de Felipão, Zagalo, Leão e outro técnico. Só que depois o programa ficou muito mole, porque os técnicos não dão porrada. O programa ficou no ar três anos. Em 2001, acabou o contrato e fui pra Record.

PLAYBOY> Quando você percebeu que era um sucesso?
MILTON NEVES > Em 1999. Foi quando a Folha de S.Paulo deu cinco páginas comigo no domingo. O Super Técnico entrou estourando, teve um retorno de  mídia fantástico. Começaram a falar que eu era gênio. Eu cheguei na Band achando que era o maior jornalista esportivo do Brasil. Eu fui lá querendo uma gravata-borboleta e smoking. Depois de um mês de televisão, cheguei à conclusão de que não tinha começado no jornalismo. Rádio é estilingue. Televisão é canhão, não tem comparação.

PLAYBOY> Quem é o melhor jogador brasileiro da atualidade?
MILTON NEVES > Eu voto modestamente no Robinho. O Ronaldinho Gaúcho recebeu uma dotação de Deus para jogar futebol de 91%. O Robinho, de 91,1%. Só o Pelé recebeu 100%.

PLAYBOY> Você e o Robinho são amigos?
MILTON NEVES > Ele me chama de pai. Tem uma história engraçada. Na primeira vez que recebeu o Troféu Bola de Prata, ele chegou de bermuda. Era uma festa de gala, no Teatro Record, promovida pela revista Placar [da Editora Abril, a mesma que publica PLAYBOY] e pelo Terceiro Tempo. Ele é um cisquinho e eu tenho 1,90 metro e 108 quilos. E ele botou uma calça minha e um paletó. Parecia um espantalho! Ele subiu ao palco e eu disse: "Robinho, como você está elegante". O neguinho ficou branco [risos]. Ele olhava pra mim com uma cara de "não conta que essa roupa é sua".

PLAYBOY> Você se vangloria de ter escalado o Felipão pra Copa de 2002.
MILTON NEVES > Jornalista não convoca jogador. O único cara que convocou alguém fui eu. Eu estava dormindo numa cadeira da Jovem Pan quando o Ricardo Teixeira [presidente da CBF] me ligou: "Milton, eu não quero decidir o novo técnico sozinho". Foi quando o Leão saiu. Eu sugeri o Felipão. Ele disse: "Seu voto foi fundamental. Estava uma disputa brava entre o Felipão e o Luxemburgo. Agora eu vou procurar o Felipão". Na época, o Luxemburgo ficou com raiva de mim, disse que eu o tirei da Copa.

PLAYBOY> Outro que você diz que convocou foi o Kaká, para a Copa de 2002.
MILTON NEVES > Ele acha isso. Porque na época eu raciocinei: "Felipão, leva o Kaká. Faça como o Parreira, que em 1994 levou o Fenômeno só pra ele sentir o cheiro da Copa. Em 98 ele foi o melhor do mundo e ganhou em 2002". No dia da convocação, o Kaká me ligou agradecendo. O Vampeta também me chama de padrinho. E o Gilberto Silva tem certeza de que eu o convoquei.

PLAYBOY> E para esta Copa, você foi consultado pelo Ricardo Teixeira sobre quem deve ser o técnico?
MILTON NEVES > Não. Aquela vez, em 2002, foi a primeira, última e provavelmente a única vez em que isso aconteceu.

PLAYBOY> Se ele tivesse te perguntado de novo, para quem seria seu voto?
MILTON NEVES > Hoje eu votaria no Luxemburgo. Ele é o técnico mais vencedor do Brasil e ganhou muita experiência no Real Madrid. Eu acho que Felipão, Luxemburgo e Leão estão ali, no mesmo nível.

PLAYBOY> O Leão? Você o criticou muito porque ele brigou com um jornalista de rádio de Campinas.
MILTON NEVES > O Leão é um homem corretíssimo, em dia com suas obrigações fiscais. Ele foi comentarista da Jovem Pan e eu conheço bem a intimidade dele. Me dizem que gosto porque não trabalho com ele. Os jogadores não o respeitam - têm medo dele. Mas o Leão é um técnico excelente. Só precisa baixar um pouco a bola. Como eu também.

 

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