
Richard Parker
Para o povo brasileiro, o Herbert de Souza não precisa de nenhuma apresentração. É conhecido de Norte a Sul do país, simplesmente como Betinho. Educado por padres dominicanos e ativista católico progressista quando adolescente. Líder do movimento estudantil durante o início da década de 60. Cassado pela ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964. Uma existência clandestina em São Paulo, adotando pseudônimo com documentos falsos durante cinco anos. Exílio no Chile, Canadá e México durante os piores anos da ditadura. Retorna em 1979, com a anistia aos exilados políticos e a abertura da sociedade e da política brasileira. Fundador e diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), uma das mais importantes organizações não-governamentais do país, que vem atuando no processo de redemocratização da sociedade brasileira desde os anos 80. Em 1986, Betinho foi a primeira pessoa pública no Brasil a declarar-se soropositivo para o HIV. Fundador e presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), uma das primeiras e mais influentes instituições do país, organizada para a defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV/AIDS e para a mobilização da sociedade brasileira na luta contra a epidemia. Articulador-chave do Movimento Ética na Política que conseguiu, em 1992, o "impeachment" do presidente brasileiro por corrupção política. Desde 1993, ele é coordenador do movimento nacional pela Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida - a campanha contra a fome -, que se destacou como uma das forças sociais mais poderosas na sociedade brasileira contemporânea. Em 1994, foi indicado pelo Presidente da República como candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Hemofílico. Quarenta e cinco quilos. Vivendo com HIV/AIDS por mais de uma década. Perspicácia sarcástica. Olhos azuis. Convicto de que idéias podem mudar o mundo. Simplesmente, Betinho.
Como a maioria dos fatos de sua biografia, os ensaios do Betinho falam por si mesmos. Em algumas poucas palavras, eles superam os temas secundários, atingindo o ponto crucial da questão. Em geral, enfocam alguns temas básicos. Respeito pela diferença. Direitos Humanos. Cidadania. Democracia. Solidariedade. Vida. São os mesmos temas que direcionam todo o seu trabalho, seja qual for o assunto em questão. Os ensaios aqui reunidos referem-se às questões específicas relacionadas ao HIV e à AIDS. Vivendo com AIDS. Confrontando estigma e discriminação. Lutando contra a opressão e o preconceito. Pelo acesso à assistência e ao tratamento. A violência das políticas públicas baseadas no medo da morte ao invés de no respeito pela vida. A necessidade de repensar radicalmente as nossas premissas básicas e, por esse processo, "inventar", literalmente, a cura da AIDS.
Reunindo estes textos (originalmente publicados separadamente, ao longo de vários anos) em um único volume, esperamos que isto torne possível distinguir, de forma mais clara, os esboços daquilo que representa simultaneamente uma filosofia e uma política da AIDS. Na verdade, esperamos que se torne visível que filosofia e política estão estreitamente ligadas - que uma não pode existir sem a outra. Assim como não há nenhuma resposta adequada ao HIV/AIDS sem engajamento político, tal engajamento é possível sem simultaneamente conceituar a base epistemológica para agir no mundo. Sem uma base política e conceitual, soluções tecnocráticas para a epidemia falharam em todos os sentidos - e em todos os lugares onde foram experimentadas. Enquanto os tecnocratas "administram" a epidemia, não oferecem nenhuma esperança de derrotá-la. Nem mesmo a ciência nada oferece se não estiver baseada na reflexão crítica e no comprometimento político. Contra esta postura, Betinho oferece a única alternativa possível - o que, segundo Rorty, poderíamos descrever como uma epistemologia de solidariedade.
A convicção de que as nossas possibilidades de conhecimento dependem da nossa capacidade subjetiva de entender a dor e o sofrimento dos outros como se fosse a nossa própria dor e sofrimento. A convicção de que é possível imaginar o futuro e fazê-lo tornar-se realidade. A convicção de que a AIDS, como tudo na vida, é um assunto político, e que uma política da AIDS tem que ser construída em base à esperança e à coragem. A convicção absoluta de que a AIDS tem cura.
O irmão do
Henfil partiu
No Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais, os matutos sobrevivem da venda do pequi, uma fruta colhida de madrugada e vendida pela manhã na feira de Montes Claros.