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Textos do Betinho - A Cura da Aids

Direitos humanos e aidsCarta contra o preconceito
Aids e pobrezaConfesso que estou vivo
A aids não é mortalO dia da cura

Direitos humanos e aids

Meu tema é direitos humanos e doenças epidêmicas, e eu vou tratar da questão da AIDS. Estou convencido de que a AIDS é uma doença revolucionária. Ela recoloca de forma radical para a nossa sociedade, tanto brasileira quanto internacional, uma série de problemas vitais que durante muito tempo tentamos ignorar. Nossa cultura foi se afastando do real e tenta ignorá-lo, ao invés de desafiá-lo. A medicina moderna foi criando uma idéia de onipotência e nos dizia, de forma indireta, que todas as doenças eram curáveis e que finalmente a morte não podia existir. A cultura ocidental moderna não só passou a ignorar a morte como tenta negá-la sob todas as pessoas e com todos os artifícios. Poucas são as pessoas que enfrentam a morte como seu cotidiano, como algo natural. Na nossa cultura, a morte não existe. E a medicina se imbuiu da idéia, transmitida através da tecnologia e do avanço científico, de que nós estávamos a pique de superar a morte. Dentro dessa visão, todas as doenças são tratáveis, todas as enfermidades são curáveis. Num determinado momento, a ciência moderna começou até mesmo a pensar que a eternidade estava ao alcance da humanidade. Estávamos já tratando o câncer como a última doença mortal. De alguma maneira, havia no horizonte de cada um de nós a seguinte expectativa: o dia em que descobrirem a cura do câncer marcará o fim das doenças mortais.

E eis que surge um vírus, o HIV, que se esconde no sistema imunitário, nas células que definem, articulam, constroem o sistema imunitário. E ao se instalar nesse sistema o desarma, fazendo com que a pessoa passe a ser absolutamente vulnerável a qualquer ataque externo. E está produzindo o pânico do século XX. Um sistema imunitário desarmado é a doença mais espetacular produzida ao longo da história da humanidade.

A AIDS se apresenta como absolutamente mortal e epidêmica. No Brasil, hoje, a cada dez meses, dobram os casos de AIDS. Tomando como base três mil casos registrados no Brasil - subnotificados, obviamente, porque devemos ter cinco ou seis mil casos -, façamos esse exercício: dobremos a cada dez meses; em seis anos chegaremos à casa dos milhões, não de pessoas contaminadas, mas de pessoas com manifestação de AIDS. Então, essa dimensão epidêmica que existe em nível de Brasil e em nível mundial, como que produz uma consciência de pânico. A humanidade, se não encontrar nos próximos seis ou sete anos a cura ou a vacina, pode estar condenada a um processo de extermínio por este vírus. Segundo pesquisas, alguns países da África já estão nesse quadro, pois 20% a 30% da população apresentam manifestação de AIDS ou se encontram contaminadas pelo vírus.

Esse vírus, sob todos os aspectos, apareceu de forma espetacular, mortal, com manifestação rápida, fulminante, sem cura. E, até o presente momento, sem nenhum meio de ataque direto que possa destruí-lo. Ele se transmite através da relação sexual que, queiramos ou não, é vital para a humanidade e é universal, e na nossa cultura está marcada por todo tipo de preconceito, culpabilidade, pecado, danação, inferno. Ele veio relacionado também ao sangue, que é outro elemento universal na cultura da humanidade; o sangue está na nossa cultura sob mil formas, há pessoas que entram em pânico quando o vêem, embora seja parte constitutiva da nossa realidade. E o vírus se transmite, fundamentalmente, pelo sangue. Mesmo quando segue através do esperma, é porque o esperma contaminado entra na corrente sanguínea. Então, este é o vírus que adora o sangue, mata-nos através do sangue.

Mas a AIDS vem também marcada por várias outras questões: o racismo, por exemplo. Quando o vírus foi descoberto, logo se buscou o culpado, e o culpado era o negro africano, a AIDS teria vindo do Haiti. Depois se descobriu que mais americanos iam ao Haiti que haitianos aos EUA, logo se abandonou em parte essa idéia. Nela, o culpado era a África, os africanos teriam sido contaminados, através de suas relações com o macaco, passando esse vírus para o resto da humanidade. O racismo ensaiou seus passos na questão da AIDS, resistiu por uns três anos, e só recentemente, com o fracasso de todas as teorias que tentaram explicar a AIDS como resultado dos "seres inferiores africanos", essa tese caiu por terra. A AIDS vinha dizer assim: "Convençam-se de que todos são mortais". E uma nova doença voltou a revelar para o século XX que a morte é absolutamente inevitável.

Bastavam esses quatro elementos para definir a AIDS como extremamente revolucionária e explosiva. Se compararmos o número de suas vítimas e o pânico existente em torno dela, não há a menor proporção. Mas eu penso, estou convencido, de que existe uma razão objetiva e subjetiva para esse pânico. É que de fato estamos diante de uma epidemia mundial, que só será vencida pelo desenvolvimento científico, pela mudança de comportamento de alguns setores da população e pela intervenção da sociedade e do Estado, de forma radical e enérgica, no controle do sangue em nível mundial. Mas eu queria ainda fazer referência a algo que a AIDS desvelou no mundo contemporâneo: a questão dos preconceitos que essa sociedade guarda em relação às pessoas. Eu, quando decidi falar aberta e publicamente que estava contaminado pelo vírus da AIDS, sabia que podia dizer isso como hemofílico, que fui contaminado através de transfusões de sangue, mas eu já havia presenciado a morte e a tragédia de várias outras pessoas, que morreram de AIDS, que tiveram que morrer clandestinamente porque eram homossexuais ou drogados. E esses homossexuais e drogados haviam incorporado a culpabilidade, a discriminação da sociedade em relação a eles, e assumido isso de tal maneira, que preferiam a morte anônima a lutar pelos seus direitos.

Uma vez fui procurado por uma jovem que me disse o seguinte: "Meu irmão é funcionário de uma empresa estatal, ele tem AIDS e não consegue se tratar em nenhum hospital: meu pai e eu é que temos que cuidar dele. Os hospitais se recusam, e a empresa não dá a menor assistência". Então, falei: "Se você quiser, nesse exato momento, vamos chamar a televisão, as rádios, os jornalistas e fazer essa denúncia". Ela respondeu: "Mas isso pode prejudicar meu irmão". E eu: "Minha amiga, você não disse que seu irmão está em estado terminal, morrendo?" "É". "E o que mais ele pode perder? Ele não vai morrer?" Ela disse: "É, ele vai morrer, mas eu tenho que pensar". Logo falei: "Bom, você pense e me diga: no momento que você quiser, vamos denunciar essa empresa estatal que está discriminando uma pessoa doente, por abuso e discriminação". Vinte dias depois, fui chamado pela mesma pessoa, que me disse: "Eu queria te agradecer porque fui conversar com a direção da empresa, exigi tratamento, disse que denunciaria essa discriminação e hoje meu irmão está morrendo com conforto, num hospital, com apartamento, com ar refrigerado, com tudo que ele tem direito". Essa pessoa se sentia feliz porque seu irmão estava morrendo em paz.

Conhecendo esse e vários outros casos, percebi que a AIDS estava revelando, de forma trágica, o modo como a nossa sociedade discrimina as pessoas, discrimina o homossexual, discrimina a relação sexual, discrimina a privacidade das pessoas, o direito de existir da forma como a sua consciência julga ser necessário, ou de acordo com seus sentimentos ou com a sua vontade. E que ainda descarrega sua discriminação sobre a cabeça e as consciências dessas pessoas. E o mais trágico é que muitas delas internalizam essa discriminação e morrem na clandestinidade, sem lutar pelos seus direitos mais elementares, como, por exemplo, o direito de morrer em paz. Se não o de viver, mas o de morrer em paz.

Essa talvez tenha sido uma das experiências mais difíceis para mim. Eu presenciava o fato em homossexuais, drogados, ou o que fosse, e estava diante das pessoas, não diante de objetos da minha condenação moral. Ao mesmo tempo, meus dois irmãos manifestavam a doença. E estávamos enfrentando esse problema ainda como clandestinos. Foi então que decidi sair da clandestinidade. Já havia vivido assim durante cinco anos, clandestino na ditadura militar; para mim era o suficiente. É inadmissível que alguém sofra por um vírus, uma doença, uma enfermidade, e que, além disso, além de ter de enfrentar a morte, ainda precise se esconder da sociedade e dos seus irmãos e irmãs. E a experiência que eu vivi ao dizer que era hemofílico e estava contaminado por AIDS, e que meus irmãos também estavam, é uma experiência extremamente positiva. Para mim e pelo menos para mais um, porque o outro irmão provavelmente não tem condições de perceber o que está acontecendo com ele. Ao romper a clandestinidade, ao denunciar a discriminação, recebi muita solidariedade.

Solidariedade de amigos recentes, amigos de muito tempo, mas também de pessoas completamente desconhecidas, que nunca me viram, que nunca souberam nada a meu respeito, que me encontram na rua e demonstram apoio e afeto. Então, descobri também isso, que quando a gente aposta na dimensão negativa, a gente colhe a dimensão negativa. O pessimista sempre colhe a desgraça. Agora, quando se aposta na dimensão positiva, na solidariedade, também se colhe a dimensão positiva. Acho que é uma coisa perigosíssima admitirmos, em princípio, que as pessoas são ruins, que são más, egoístas e covardes. Acho que devemos partir do princípio oposto, e apostar nisso. E tomar o resto como exceção e não como regra. Há um caso ilustrativo. Meu filho de 05 anos e meio brincava sempre com duas crianças e, quando eu saí na televisão, no jornal ou no rádio, os dois amiguinhos desapareceram de nossa casa. Minha esposa pressentiu algum problema. A primeira reação nossa foi de profunda tristeza. Discriminar a mim que tenho 52 anos não me incomoda muito, mas discriminar uma criança de 05 anos e meio é triste. Triste e inadmissível. Decidimos chamar a família, o pai e a mãe das duas crianças, e eles vieram. Sentamos e dissemos: "Olha, nós sabemos que vocês devem estar preocupados com os filhos de vocês: é justo; todo pai e toda mãe se preocupam com os filhos, com a saúde deles, mas queremos dizer a vocês algumas coisas". Então demos, durante uma hora, mais ou menos, um curso prático sobre hemofilia, transfusão de sangue, contaminação genética. Falamos que nosso filho não é hemofílico, portanto não toma transfusão de sangue, portanto não está contaminado. Depois, mais meia hora sobre AIDS, as formas de contaminação, as formas de transmissão, como se transmite, como não transmite. E os dois escutavam muito atentamente e, depois dessa conversa, já estavam querendo saber sobre outras coisas, sobre onde tínhamos estado no exílio, curiosos sobre outras dimensões de nossa vida. Após duas horas de conversa, toda a questão estava resolvida. No outro dia cedo, as duas crianças amigas já estavam lá em casa, brincando com o nosso filho. E continuam brincando até hoje.

Esse exemplo só nos mostrou o seguinte: a passividade, o pessimismo, a entrega ao que existe de pior, só reproduz o pior. Se não tivéssemos conversado com aquela família, provavelmente as crianças não estariam brincando com nosso filho. Mas, depois da conversa, da informação, da abertura, da confiança na capacidade deles de entender a questão e enfrentá-la, a situação mudou. Não quero dizer que todos vão ter condições de viver e de proceder como nós. A situação para os homossexuais é muito difícil, mas é possível fazer alguma coisa.

Partindo da experiência pessoal, quero dizer o seguinte: a AIDS está produzindo um verdadeiro strip-tease da nossa sociedade, dos nossos valores, da nossa cultura, assim como do sistema de saúde em nosso país. Aqui, o sistema de saúde não existe para a prevenção. É um sistema da cura, da morte e do comércio. Desde há muito deficiente, foi destruído ao longo desses vinte e tantos anos de ditadura. Na verdade, nunca tivemos uma política séria de saúde pública, que estivesse voltada para interesses da população.

Eu já disse que a AIDS era a ponta de um iceberg , porque é a ponta mais dramática, mais visível. Mas logo a seguir vem uma série de doenças endêmicas que poderiam ter sido absolutamente eliminadas do país, com pouco investimento e pouco recurso, e que até hoje não o foram, para vergonha nossa. O Brasil é um país tuberculoso, um país com doença de Chagas, com lepra, com esquistossomose e uma série de outras enfermidades que atingem a milhões de pessoas, sem contar aquelas que morrem sem estar doentes, porque morrem de fome. É o caso da mortalidade infantil no Nordeste e também (por que não?) nas periferias das nossas capitais. Há, porém, a consciência política de que não temos um sistema de saúde, mas de doença e comércio - exatamente esse comércio que produziu a calamidade do sangue, transformando-o em mercadoria e hoje transmitindo a morte, através da transfusão, pela AIDS, Hepatite B e várias outras doenças. Essa situação tem muito mais a ver com política e cidadania e direitos humanos do que com qualquer outra coisa. Nessa luta relacionada à AIDS tive uma revelação fantástica: descobri que o principal problema de saúde do Brasil era o ministro da Saúde. Ele, um ministro da Saúde de um país que ocupa o 2º lugar do mundo em casos absolutos de AIDS, nunca entendeu o que é uma epidemia, tendo tido a coragem de dizer que não importava AZT porque o Brasil tinha que fazer pesquisa científica para comprovar sua eficiência e proteger o consumidor. Isso quando sabemos que esse mesmo ministro permite a importação e o uso, aqui no Brasil, de drogas condenadas no mundo inteiro.

Outro exemplo de como a gente enfrenta obstáculos onde não deveria haver, foi quando o diretor da Cacex, perguntado pelo jornalista se importaria ou não AZT, saiu-se com esta jóia: " AZT é coisa de bicha rica ". Pois bem, depois dessa, ele continuou em seu cargo, porque uma das coisas que se perdeu nesse país foi algo elementar, que se chama sentido de dignidade.

Mas gostaria de terminar, dizendo o seguinte: creio que podemos transformar a tragédia da AIDS, da enfermidade e da doença num desafio, numa oportunidade, numa possibilidade de recuperar na nossa sociedade, em nós mesmos, em cada um de nós e em todos nós, o sentido da vida e da dignidade. E, com esse sentido da vida e da dignidade, seremos capazes de lutar pela construção de uma sociedade democrática, de uma sociedade justa e fraterna.

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