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Textos sobre Betinho

Índice de textos

Um aprendiz da vida

Falar sobre Betinho sem cair no lugar-comum é um desafio difícil de ser superado, principalmente porque ninguém falava melhor sobre ele do que ele mesmo. Ao falar sobre si conseguia ser espirituoso, cáustico, elogioso, irônico, complacente, amoroso e, na maioria das vezes, impiedoso. Impiedoso porque sabia apresentar sua trajetória e biografia com economia de palavras, comparável ao traço dos desenhos de seu irmão Henfil.

Mineiramente, falava das aparentes contradições contidas nas suas filiações religiosa e político-partidária; publicamente expunha o que era passar pela experiência de ter tido tuberculose, ser hemofílico e soropositivo; pioneiramente buscou apoio nas empresas privadas para o desenvolvimento de ações de prevenção e de assistência às pessoas com HIV/AIDS; indignadamente falava do descaso com que o sangue era (ainda é) tratado no Brasil; veementemente defendia maior justiça nas políticas sociais; constantemente alertava que a AIDS só será vencida quando for vista como um desafio a ser enfrentado, não somente pelo setor público, mas, também, pela comunidade de uma maneira geral; esperançosamente nos lembrava que, um dia, a cura da AIDS será possível.

Nós, da ABIA, temos consciência que tudo que fizermos será parcial e insuficiente para expressar o que Betinho representou - não somente no cenário nacional - no que diz respeito à construção de respostas solidárias e políticas frente à epidemia de HIV/AIDS. O que buscamos neste número especial do Boletim ABIA é mostrar, pela escolha de alguns textos, como Betinho, em distintos momentos, analisou a AIDS no Brasil. Todos os textos escolhidos - aqui apresentados de forma cronológica - foram publicados no Boletim ABIA . Abrindo esta edição, apresentamos parte de uma carta que Betinho escreveu para Maria, sua esposa, que generosamente a cedeu para publicação. Nesta carta, deixada por ele com amigos para ser entregue à Maria e à vida, mais uma vez, ele se apresenta, refaz a sua biografia, mesclando, entre outras coisas, política, sexualidade, doença e amor.

Para aqueles que, de alguma maneira, conviveram com ele, fica o desafio da continuação e renovação de suas idéias e ações. Para a ABIA, que teve em Betinho a figura do seu idealizador, fundador e presidente, também se coloca, além dos pontos citados, a pergunta sobre os caminhos possíveis que ainda podem ser trilhados para o delineamento de estratégias e formas de atuação frente à epidemia de HIV/AIDS no Brasil.

Estratégias e formas de atuação que não busquem soluções somente técnicas e burocráticas, mas que consigam dar lugar ao novo, fugindo da cronificação de modelos de prevenção e assistência, sem abdicar da invenção. Estratégias e formas de ação que, de alguma forma, incorporem análises que contribuam no delineamento de políticas públicas e comunitárias de saúde mais justas, éticas e solidárias.

Jane Galvão

Coordenadora Geral ABIA

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Prefácio
Para o povo brasileiro, o Herbert de Souza não precisa de nenhuma apresentração. É conhecido de Norte a Sul do país, simplesmente como Betinho. Educado por padres dominicanos e ativista católico progressista quando adolescente. Líder do movimento estudantil durante o início da década de 60.

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